terça-feira, 14 de novembro de 2017

Cientistas desenvolvem plástico do caroço de manga por meio de nanotecnologia



Foto: Edla Lima
Edla Lima -
Aplicação da nanotecnologia para o desenvolvimento de biomateriais de alto valor agregado com a utilização de resíduos industriais de baixo valor comercial. Esse foi o desafio assumido por uma equipe de cerca de 30 pesquisadores de quatro instituições de pesquisa, sob a coordenação da Embrapa Agroindústria de Alimentos(RJ). Os primeiros resultados, após quase três anos de trabalho, mostram um tipo de plástico biodegradável, feito da amêndoa do caroço de manga em mistura com o biopolímero natural, o PHBV, que pode ser aplicado à indústria alimentícia, na composição de embalagens, e até no setor médico para compor matrizes ósseas. Trata-se do primeiro passo para o desenvolvimento de um plástico biodegradável comercial que utiliza como matéria-prima resíduos da indústria alimentícia.
O trabalho recebeu homenagem na 5ª Conferência Internacional sobre Polímeros naturais, biopolímeros e biomateriais (ICNP 2017 Rio). A premiação foi destinada à pesquisa de Paulo Henrique Cardoso, doutorando em engenharia de materiais do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ).
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2013), o Brasil é um dos maiores produtores de manga do mundo com uma produção de mais de um milhão de toneladas por ano. O processamento industrial de manga para polpas e sucos resulta no descarte dos caroços, correspondente a valores entre 40% e 60% do seu volume. A equipe de pesquisa da Embrapa Agroindústria de Alimentos (RJ), em parceria com a Embrapa Instrumentação (SP), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e Centro de Tecnologia Mineral (Cetem) se reuniram em busca de alternativas para reutilizá-los, visando gerar uma tecnologia que pudesse ser aplicada à indústria.

Plásticos de casca e caroço de manga

O objetivo do projeto foi dar uso e agregar valor a esse resíduo de grandes volumes e alto impacto ambiental. “O desenvolvimento de novos biocompósitos pode ser um caminho viável para o aproveitamento de coprodutos industriais na fabricação de itens inovadores e sustentáveis”, afirma a pesquisadora da Embrapa Edla Lima, que lidera os estudos. O projeto está dividido em várias frentes de pesquisa para a utilização da casca e da amêndoa do caroço de manga e argilominerais adicionados a uma matriz de polímeros orgânicos: o PHBV — um biopolímero natural produzido por bactérias — e o PLA — outro biopolímero natural, obtido de moléculas de ácido lático.
Resultados parciais do desenvolvimento de outro biocomposto à base do biopolímero PLA serão apresentados durante o IX Workshop de Nanotecnologia Aplicada ao Agronegócio, que ocorrerá nos dias 21 e 22 de novembro na Embrapa Instrumentação, em São Carlos (SP).
Um dos principais desafios de toda a equipe se concentra na utilização um material que não tem uniformidade, como o caroço de manga, em que a casca e a amêndoa variam em composição e estrutura dentro de uma mesma espécie vegetal, de época e local de origem. Os cientistas têm de driblar essa dificuldade para garantir a reprodutibilidade da composição (formulação). Para isso, já foram realizados mais de uma centena de testes, utilizando técnicas de casting, extrusão, injeção e moldagem por compressão.
Foram avaliadas diferentes concentrações da amêndoa e da casca do caroço de manga como carga de reforço em biopolímeros comerciais (PLA e PHBV), adicionados ou não de quatro diferentes tipos de argilominerais, que foram concentrados e organofilizados. Para avaliar resistência, cristalinidade e elasticidade, os materiais resultantes foram analisados por calorimetria de varredura diferencial (DSC), análise termogravimétrica (TGA), microscopia eletrônica de varredura (MEV) associado à espectrometria de energia dispersiva de Raios-X (EDS), ressonância magnética (NMR1H), Difratometria de Raios-X (DRX), e infravermelho (FTIR).
A professora Rossana Thiré da Coppe/UFRJ explica o processo de extrusão termoplástica aplicada a biopolímeros

Nova estrutura

A equipe do projeto já conta com bons resultados na obtenção de novos biocompósitos, como os trabalhos com PHBV e a amêndoa do caroço de manga, coordenados pela professora Rossana Thiré do Laboratório de Biopolímeros da Engenharia Metalúrgica e de Materiais da Coppe/UFRJ. Os pesquisadores testaram, em diferentes concentrações, a utilização dos resíduos do processamento da manga como reforço de biocompósitos biodegradáveis usando o PHBV em moldagem por compressão. A adição do pó da amêndoa do caroço de manga promoveu uma nova estrutura no polímero.
Os biocompósitos apresentaram maior interação intermolecular, o que promoveu maior dispersão e distribuição do material de enchimento. “As análises demostraram boa adesão, dispersão e distribuição em amostras com PHBV. Os resultados indicam que a fabricação de biocompósitos pode ser uma estratégia para a reutilização desse subproduto agroindustrial", ressalta a professora e pesquisadora Rossana Thiré. Agora, a equipe está voltada para dar continuidade ao projeto e chegar a um produto comercial. “Há diversas possibilidades de uso na área alimentícia, médica e de lazer”, avalia Rossana.

De ossos artificiais a embalagens de alimentos

Há mais de quinze anos, a pesquisadora e sua equipe desenvolvem pesquisas com polímeros a partir de matrizes orgânicas para a área de alimentos (embalagens alimentícias, filmes de proteção de alimentos, copos e talheres) e de bioengenharia (matrizes ósseas, fios de sutura de pele, moldes biocompatíveis). “Devido à sua abundância e renovabilidade, a utilização de resíduos agrícolas como matérias-primas é vantajosa para a economia, o meio ambiente e a tecnologia, devido à sua baixa demanda de energia de fabricação, baixa emissão de CO2 e alto nível de biodegradabilidade, quando comparados aos compósitos de polímeros reforçados com enchimentos inorgânicos”, conta a professora e pesquisadora Rossana Thiré. É fato que os biopolímeros naturais ainda são até 12 vezes mais caros que os polímeros gerados por petróleo, mas levam cerca de dois meses para se decompor no meio ambiente. “Há de se pagar esse custo adicional para evitar que toneladas de plásticos tradicionais gerem impactos ambientais por mais de um século”, afirma.

Pesquisas em andamento

A equipe de pesquisa da Embrapa Alimentos, da Embrapa Instrumentação, do Departamento de Engenharia Química da UFRRJ e do Cetem estão desenvolvendo a aplicação de argilominerais em mistura à matéria orgânica da manga na matriz de PLA. O objetivo é obter melhor efeito de carga de reforço, o que dá mais resistência ao material. Contudo, há outra barreira tecnológica a ser transposta. A boa interação entre os argilominerais naturais e o polímero não acontece espontaneamente devido à similaridade de cargas. Para isso, é necessário alterar a estrutura molecular do material.
“Utilizamos a técnica de organofilização para modificar o argilomineral concentrado e obter melhor aderência ao polímero. Trabalhamos em escala nanométrica para a obtenção desses biocompósitos, a partir de argilominerais”, conta Antonieta Middea, do Cetem. O argilomineral utilizado na pesquisa provém de quatro tipos de montmorilonita/bentonita, advindas de jazidas do Rio Grande do Norte e Bahia.
Pelas técnicas de peneiramento e densimetria se concentra a fração de argila rica neste tipo de argilomineral. Esse processamento possibilita a obtenção desses argilominerais para serem posteriormente organifilizados e incorporados ao polímero. A vantagem é que são materiais relativamente baratos. “O desafio dessa parte do projeto é obter um nanocompósito com minerais e matérias orgânicas (polímeros naturais), provenientes de subproduto agroindustrial. A soma de conhecimento entre as instituições vem contribuindo para a obtenção em um biocompósito transparente, biodegradável e de alta resistência. Os resultados preliminares são animadores”, avalia Reiner Neumann, pesquisador líder do Cetem. Destaca-se que esses quatro institutos em conjunto estão buscando o desenvolvimento desses novos biocompósitos a partir de técnicas distintas de processamento, ou seja, por casting e por extrusão/injeção termoplástica.
É importante ressaltar que essas pesquisas têm como meta desenvolver biocompósitos ambientalmente corretos para servir como matéria-prima de embalagens seguras de alimentos, agregando valor e uso ao que antes era considerado lixo da agroindústria de sucos associado a argilas ou não na função de "carga de reforço". Esses novos biocompósitos visam a ser substituintes aos polímeros de petróleo utilizados com essa função.

Uso de tecnologia para o gerenciamento da equipe

Para garantir o comprometimento da equipe e gerenciar cada etapa do desenvolvimento da pesquisa, a cientista Edla Lima também se apoia na tecnologia. “Como são equipes que trabalham em locais diferentes, de diferentes níveis – há pesquisadores seniores e em formação - acompanhamos de perto cada etapa das análises e discussões técnicas pela rede social WhatsApp. Trocamos fotos e vídeos, e envolvemos o grupo nos avanços da pesquisa e na busca de soluções conjuntas para as dificuldades técnicas e operacionais que enfrentamos no dia a dia”, conta a pesquisadora da Embrapa para quem a estratégia tem sido eficaz pelos resultados gerados pelo projeto.
Aline Bastos (MTb 31.779/RJ)
Embrapa Agroindústria de Alimentos

Telefone: (21) 3622-9739

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

O QUE PLANTAR EM CADA ESTAÇÃO DO ANO?

     Todo mundo sabe que cada estação do ano possui sua característica e isso pode ser um fator importantíssimo que influenciará totalmente na hora de ditar qual espécie você deve cultivar em uma determinada época.
     Por isso é importante demais conhecer sobre as espécies antes do plantio e descobrir se elas serão plantadas em uma estação favorável.
     Falaremos sobre quais plantas são específicas para cada estação do ano.
     Pesquisar sobre as flores ideais para cada época do ano tem um objetivo simples e claro: Cultivar espécies que estão na época correta de seu desenvolvimento e deixar o jardim mais bonito. Além disso, com plantas crescendo em estações propícias é possível atrair polinizadores que transformarão o seu jardim em um verdadeiro habitat natural para estes insetos.
     Sendo assim, é preciso analisar bem as plantas que pretende plantar e verificar qual delas se adapta a temperaturas mais baixas no inverno, quais ficarão bonitas no outono com suas folhas caídas ou quais se desenvolverão bem no verão em altas temperaturas.
     O que não falta são flores que podem ser cultivadas. Sabendo qual é a melhor para cada estação o seu plantio fica mais seguro e a chance de tornar seu jardim colorido será, sem dúvidas, muito maior.
     Para saber quais flores se adaptam melhor a uma determinada estação do ano, confira abaixo um calendário das flores.
     Perceberá que existem incontáveis espécies para escolher, mas é importante respeitar os critérios de cultivo de cada uma delas. Por mais que as estações favoreçam o crescimento destas flores, não se esqueça de pesquisar sobre a espécie e averiguar quais são os cuidados que devem ser tomados em seu cultivo.

1. Primavera

     A primavera é a estação das flores. Sendo assim, é nesta época que a grande maioria das plantas costuma florescer. Por ser tratar de uma época propícia as opções de cultivo crescem e os polinizadores começam a aparecer no jardim com frequência. Confira algumas espécies ideais para essa estação.
Citros em geral: Eles se desenvolvem bem na primavera mas um fato curioso é que alguns também crescem bem durante o inverno.
Marronia: É uma arbustiva com flores amarelas ideal para ornamentação de jardins
Buxo: Ornamental e muito utilizado como cerca viva, possui flores brancas que se destacam
Lâmia: Ela é uma herbácea rasteira que costuma apresentar lindas flores, mas somente na primavera
Plantas aromáticas: São ótimas espécies para serem cultivadas durante a primavera, mesmo que algumas deem flores e outras não
Frutíferas como: Pessegueiro; Mirtilo; Pereira
Rosas do Deserto: Plantas de sol pleno elas florescem na primavera e se adaptam facilmente ao clima quente

2. Verão

     O verão é a estação quente onde o sol se faz presente com grande intensidade na maior parte do tempo.
     Nessa categoria, as flores mais comuns apreciam os raios solares em quase todo seu período e precisam deles para seu pleno desenvolvimento.
     No verão as flores costumam ser mais resistentes e passam a durar mais por causa da atividade fotossintética. Além da já citada presença de polinizadores.
     Algumas plantas indicadas são:
Margaridinhas: Bastante coloridas e pequeninas elas fazem sucesso. Podem variar na tonalidade de espécie para espécie. São uma ótima aposta para a estação.
Artemísia: As flores brancas preenchem um belo arbusto de pequeno porte, perfeito para decoração
Buddleja: Flores brancas e violetas, totalmente ornamentais e de ótimo desenvolvimento durante o verão
Amor-agarradinho: Arbusto de porte médio a planta apresenta na maioria das vezes flores rosas, mas é possível encontrar cultivares com flores brancas também

3. Outono

     Poucas espécies conseguem florescer nesta época e por isso a lista de plantas indicadas é sempre mais escassa.
     O Outono costuma ser uma época do ano muito equilibrada e por isso não exige abundância de flores. O que importa nessa estação são as incontáveis folhas que acabam enfeitando o jardim e combinando com a grandes maioria de espécies florais.
Algumas flores indicadas:
Girassol: Os girassóis costumam ser muito utilizados no Outono, afinal, combinam bastante com o clima. Se bem cultivados, florescem em abundância tornando o ambiente num lugar mágico de tão lindo
Dálias: No Outono elas se desenvolvem bem e produzem lindas e numerosas flores
Capuchinhas: As Capuchinhas são flores amarelas mas que também possuem algumas tonalidades em vermelho ou laranja. Combinam muito com a estação
Campanulas: Essas flores de formato exótico lembram campainhas e são perfeitas para o cultivo durante o Outono

4. Inverno

     As plantas que se adaptam facilmente ao inverno geralmente apresentam grande resistência à baixas temperaturas. Além disso se desenvolvem melhor longe de raios solares.
     Algumas espécies suportam até mesmo as temidas geadas em algumas partes do país. E pra que acha impossível encontrar polinizadores em seu jardim durante essa estação, saiba que não é. Eles podem aparecer
     Opções que você pode ter:
Camélias: Seja em mudas para arbustos ou apenas as flores em si de colorações variadas, as Camélias vão bem no inverno e podem enfeitar o jardim
Citros em geral: Eles podem até não florescer nessa estação, mas são ótimas plantas para o inverno
Azaléias: Os arbustos com cores variadas crescem bem na estação fria e trazem uma beleza surreal ao jardim
Marmelinho de jardim: Lindas, pequeninas, coloridss e perfeitas para a estação
Cerejeira-do-japão: A belíssima espécies floresce muito bem durante o inverno e se destaca graças à suas intensas e apaixonantes cores
fonte:blog plantei

terça-feira, 26 de setembro de 2017

O censo agropecuário vem aí
O agronegócio é um setor que tem inegável protagonismo na economia nacional, considerando a pujança do agronegócio, as informações estatísticas sobre tal setor precisam ser revistas e atualizadas.
Antes de deixar a presidência do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE e assumir o comando do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social – BNDES, o economista Paulo Rabello de Castro plantou uma boa semente para o agronegócio: conseguiu viabilizar a estruturação do Censo Agropecuário, que será realizado entre outubro de 2017 e fevereiro de 2018.
Estima-se que haja no Brasil mais de 5 milhões de propriedades rurais. Por meio do Censo Agropecuário 2017 será possível a coleta de informações sobre a agropecuária, florestas, criação de peixes, práticas agrícolas, uso do solo e de tecnologias, relações laborais, perfis de renda e outros itens, objetivando a construção de diagnósticos e políticas públicas para a agropecuária e setores a ela ligados, especialmente em tempos de escassez de recursos orçamentários.
A Emenda Constitucional 95, de 2016, ao fixar um teto global para os gastos públicos federais, criou um novo parâmetro para a Administração Pública, o que dever acirrar, nos próximos anos, os conflitos distributivos em torno do Orçamento Geral da União.
A própria realização do Censo Agropecuário 2017 deve ser considerada uma vitória do agronegócio, tendo em vista que, em razão dos custos envolvidos e dos cortes orçamentários, sua realização quase foi novamente adiada.
Lideranças do Ministério da Agricultura, do IBGE e de expressivas entidades de representação do agronegócio consideram que é fundamental a participação e a cooperação de todos os produtores rurais para que tal levantamento de dados tenha sucesso.
Nos Estados Unidos o primeiro censo agropecuário foi feito em 1840 e é realizado, de forma planejada, a cada cinco anos. As informações coletadas periodicamente entre os produtores rurais naquele país são essenciais para a elaboração da Farm Bill, que é uma legislação aprovada pelo Congresso, também a cada cinco anos, para o setor agropecuário norte-americano. O lema da pesquisa que deve ocorrer nos Estados Unidos neste ano é: “Agricensus: sua voz, seu futuro, sua oportunidade”.
O Censo Agropecuário brasileiro também pretende dar voz ao produtor rural, sendo uma oportunidade para ajudar na construção do amanhã, com a coleta de informações que serão consolidadas a partir de diversos filtros, assegurado o sigilo dos dados personalizados. Tais informações serão também importantes para a definição de investimentos pelos atores privados do agronegócio, além de subsidiar a produção acadêmica nas universidades.
A informação correta é o primeiro dos insumos para todo processo decisório, seja na gestão de um negócio, seja na condução de políticas voltadas para o fomento da atividade agrícola. É o que na literatura jurídica costuma se chamar de “princípio da decisão informada”.
Em um país continental como o nosso, o Censo Agropecuário pretende ser uma grande oportunidade para que não só o Governo Federal, mas também Estados, Municípios e organizações produtivas possam conhecer melhor o agronegócio brasileiro.
*Adacir Reis é advogado. Foi membro da Comissão de Juristas do Senado Federal para a Reforma da Lei de Arbitragem e Mediação. É sócio do Escritório Reis, Tôrres, Florêncio, Corrêa e Oliveira Advocacia, em Brasília.
Fonte: Diário da Região – São José do Rio Preto,19 de setembro de 2017

Pesquisa desenvolve vacina contra doença pulmonar suína


Foto: Jairo Backes
Jairo Backes -
A proposta de formulação de uma vacina contra a Pasteurella multocida sorotipo A (PmA), importante agente de doença clínica e de condenação de carcaças de suínos nos frigoríficos por lesões pulmonares, está pronta e aguarda uma parceria para finalizar o desenvolvimento para o mercado.
Durante três anos, pesquisadores da Embrapa Suínos e Aves estudaram o problema de doença respiratória em suínos associada a PmA no campo, isolaram e testaram experimentalmente a agressividade de diversas cepas da PmA, identificaram cepas da bactéria potenciais candidatas ao desenvolvimento da vacina e testaram em suínos um protótipo de vacina para a prevenção da doença. Os resultados, de acordo com a equipe, foram promissores. Agora, um edital para estabelecer parceria no co-desenvolvimento e comercialização do produto já está em processo de finalização e deverá ser publicado em breve. O objetivo do edital é selecionar uma empresa especializada e firmar parceria na fase final de desenvolvimento e produção dessa vacina de uso veterinário.
O estudo da Embrapa levou em consideração a importância da PmA em quadros patológicos de pneumonia e pleurite/pericardite em suínos, doenças pulmonares que oferecem um prejuízo considerável à cadeia produtiva. “Os impactos incluem gastos com medicamentos, redução no desenvolvimento dos animais, aumento da mortalidade na fase de terminação dos suínos e aumento das condenações no abate, o que afeta diretamente a cadeia produtiva, seja na granja ou no frigorífico”, comenta o pesquisador da Embrapa Nelson Morés, líder do projeto que desenvolveu a vacina. Um trabalho executado pela equipe sobre o impacto econômico das pleurites/pericardites em suínos num abatedouro grande estimou um prejuízo para a indústria de R$ 9,85/suíno abatido. “Supondo-se que 50% dessas lesões sejam causadas pela PmA, o prejuízo para o abatedouro seria de R$ 4,92/suíno abatido”, explica o pesquisador.
Nos últimos anos, quadros graves de pneumonia por PmA vêm sendo observados, causando perdas severas em diversas criações de suínos, principalmente nas fases de crescimento e terminação. “Por isso, a importância de propor uma vacina que atinja diretamente o agente”, explica o pesquisador Luizinho Caron, virologista da equipe. Ele esclarece que a grande diversidade de sorotipos e cepa da Pm e a dificuldade no entendimento da patogenicidade limitam o desenvolvimento de vacinas comerciais para pasteurelose pulmonar.
Em função das características atuais dos sistemas de produção, em que os suínos são criados confinados em concentração elevada e, na maioria das vezes, com mistura de leitões de diferentes origens nas fases de creche ou terminação, as enfermidades tornaram-se relevantes para o avanço da produtividade.
Quarto maior produtor mundial
Atualmente, o Brasil é o quarto maior produtor de carne suína no mundo, com produção de 3,73 milhões de toneladas. Nas exportações, ocupa também o quarto lugar, com 732,9 mil toneladas exportadas. “Proteger e cuidar do rebanho contra doenças está entre as prioridades da cadeia produtiva”, comenta o pesquisador. Entre as doenças, as respiratórias, como as pneumonias, têm grande impacto na produção.
Por muito tempo, a Pasteurella multocida foi considerada apenas como agente secundário nas pneumonias em suínos. “Porém, esses estudos conduzidos no Brasil identificaram diferentes isolados de PmA capazes de sozinhos causar doença em suínos”, explica Morés.

Pesquisador Nelson Morés explica a pasteurelose, doença pulmonar que atinge suínos

Experimento identificou a melhor opção de proteção
A pesquisa na Embrapa baseou-se inicialmente na identificação e coleta de amostras de suínos com doença pulmonar em rebanhos das principais regiões produtoras de suínos: Sul, Centro-Oeste e Sudeste. As amostras foram isoladas e a doença foi reproduzida em laboratório da Embrapa Suínos e Aves, seguindo os Princípios Éticos de Experimentação Animal, com suínos do rebanho experimental da Unidade, livres dos principais patógenos respiratórios, entre eles PmA. “Testamos oito dessas amostras e verificamos que umas eram mais agressivas que outras. Depois, selecionamos uma amostra considerada muito agressiva e trabalhamos na elaboração da vacina”, conta o virologista Luizinho Caron, pesquisador da mesma Unidade da Embrapa. Um dos aspectos do trabalho foi descrever a expressão da resposta imune dos suínos induzida pela infecção da PmA e determinar a prevalência dessa bactéria em tonsilas de suínos vacinados e não vacinados.  

Pesquisador Luizinho Caron explica os impactos e a origem do nome da doença
Nos estudos seguintes, a vacina foi testada inicialmente em camundongos e posteriormente em suínos. De acordo com Caron, a vacina foi feita a partir de cepas virulentas da bactéria. “Os genes de virulência são importantes para proteger contra a bactéria”, detalha. A equipe também trabalhou na identificação desses genes para que a vacina pudesse agir de forma eficaz. “A identificação dos genes é importante e faz toda a diferença para que possamos obter um produto que age diretamente no centro do problema,” afirma. Parte da identificação desses genes já está pronta e foi usada no desenvolvimento da vacina proposta, porém, as pesquisas seguem sob coordenação de pesquisadores da área e devem ser finalizadas em breve, com publicação de trabalho científico.   
Segundo dados da equipe que atuou no projeto, a prevalência de PmA nas lesões pneumônicas em suínos tem se mantido alta ao longo do tempo no Brasil. No Rio Grande do Sul, por exemplo, em suínos de abate com lesões de pneumonia e pleurite, o índice é de 43%. Em Santa Catarina, o número fica em 51,3%, em lesões responsáveis por desvio de carcaças pelo serviço de inspeção sanitária. Trabalhos em outros países da Europa e nas Américas também demonstram a alta prevalência desse agente. Na Dinamarca, 79% das lesões de broncopneumonia cranial em suínos a PmA estava presente.
A doença e o controle
A bactéria P. multocida (Pm) é considerada um importante microrganismo que faz parte da microbiota residente no trato respiratório dos suínos. Até o momento, foram identificados cinco sorotipos capsulares (A, B, D, E e F) e 16 sorotipos somáticos. O sorotipo A, objeto da pesquisa da Embrapa, é um dos mais encontrados em lesões pneumônicas em suínos.
Conforme relata Morés, a Pm induz quadros clínicos variáveis, dependendo do grau de imunidade do animal, da virulência da cepa e do sorotipo envolvido. “Alguns têm sintomas mais agressivos, ocasionando patologias como a pneumonia hemorrágica, pleurite e pericardite”, explicou.
Alguns sinais clínicos observados nos animais infectados são dificuldade para respirar, respiração abdominal, prostração, falta de apetite e temperatura corporal alta (41,6ºC). A tosse aparece como um sinal relevante quando esta bactéria está associada à pneumonia enzoótica ou influenza e, nesses casos a redução no desempenho é significante. A mortalidade nesses casos pode chegar a 40%.  A doença ocorre com maior frequência no período de terminação dos suínos, depois de 100 dias de idade, até o abate. 
Os sinais clínicos e lesões macro e microscópicas, na maioria das vezes, de acordo com o pesquisador Morés, não são suficientes para o diagnóstico definitivo da pasteurelose pulmonar. “O diagnóstico precisa ser feito considerando outros aspectos como o isolamento da PmA ou demonstração do agente nas lesões recentes de pneumonia, pleurite ou pericardite”, diz.
O controle das infecções respiratórias causadas pela PmA inclui três principais fatores: o fornecimento de boas condições ambientais e de manejo aos animais, a utilização de antimicrobianos e a vacinação. Atualmente, o controle de Pm em rebanhos de suínos é feito basicamente pelo uso de antimicrobianos na forma de tratamentos preventivos coletivos na ração ou água, ou terapêutico individuais aos animais doentes.
Quanto à vacinação, Nelson Morés explica que há vacina inativada comercial indicada para prevenção da pasteurelose pulmonar, porém, sua efetividade tem sido questionada. “Em condições de campo, veterinários clínicos que atuam na suinocultura brasileira têm obtido resultados insatisfatórios com o uso dessas vacinas. Uma possível explicação para isso é que as amostras contidas nas vacinas sejam diferentes daquelas envolvidas nos quadros clínicos observados nas granjas”, comenta.
O protótipo da vacina desenvolvida pela Embrapa, e que deve ser finalizada na parceria com uma empresa especializada, pretende atuar no foco da doença, ou seja, no controle do agente (PmA). “Nos experimentos, conseguimos respostas imunes satisfatórias e o número de condenações diminuiu”, explicou o pesquisador. Para controle da qualidade da vacina produzida, também foram desenvolvidos métodos para testar a eficácia da vacina em camundongos.
O edital para seleção de uma empresa especializada estará disponível no portal da Embrapa Suínos e Aves. Também estão disponíveis no portal publicações e informações sobre a doença.
Monalisa Leal Pereira (MTb 01139/SC)
Embrapa Suínos e Aves

Telefone: (49) 3441-0400

Novo microrganismo produz enzima de interesse industrial com mais sustentabilidade


Foto: Bruno Brasil
Bruno Brasil -
Embrapa Agroenergia (DF) desenvolveu um microrganismo geneticamente modificado que atua como biofábrica capaz de produzir um insumo utilizado nas indústrias de biocombustíveis, alimentos, bebidas, papel e tecidos. Esse insumo, as betaglicosidases, é um grupo de enzimas que atuam na última etapa da degradação da celulose de vegetais como algodão, cana-de-açúcar e eucalipto. O centro de pesquisa depositou pedido de patente da tecnologia, desenvolvida em parceria com a Universidade Federal do Rio Grande (Furg).
Atualmente, a produção comercial de betaglicosidades é feita principalmente por fungos ou bactérias, que necessitam consumir açúcar ou outra fonte de carbono para crescer. A novidade é que os pesquisadores conseguiram fazer com que essas enzimas sejam produzidas por outro tipo de microrganismo, uma cianobactéria. Isso é vantajoso justamente porque elas não precisam ser “alimentadas” com açúcares. Semelhantes a microalgas, elas são organismos unicelulares aquáticos que combinam características de microrganismos e plantas e realizam fotossíntese. Por isso, precisam apenas de CO2 e luz para crescer e produzir as enzimas.
O chefe de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Agroenergia, Bruno Brasil, explica que, por não precisarem de açúcares ou outras fontes de carbono orgânico, as biofábricas de enzimas baseadas em cianobactérias possuem vantagens potenciais quanto ao custo de produção e capacidade de escalonamento. A tecnologia também é capaz de agregar mais sustentabilidade às cadeias produtivas que empregam as enzimas, já que, para crescer, esses organismos capturam CO2 da atmosfera ou de processos produtivos associados. “Poderiam consumir o CO2 que sai das dornas de fermentação de usinas de açúcar e álcool”, exemplifica Brasil. Além disso, por não conterem açúcares, os meios de cultivo das cianobactérias são menos suscetíveis a contaminações que reduzem a produtividade.
Gene amazônico
De olho nessa vantagem da substituição dos fungos por cianobactérias, os pesquisadores depararam-se com o primeiro desafio: não se conhecia, na natureza, espécies capazes de gerar naturalmente quantidades significativas dessas enzimas. Por isso, a equipe dedicou-se logo à modificação genética. Para aumentar a produção de betaglicosidases pela cianobactéria selecionada, o grupo utilizou um gene encontrado na comunidade bacteriana do solo da Floresta Amazônica. Esse gene havia sido identificado anteriormente por outra equipe da Embrapa Agroenergia, que usa técnicas de Biologia Molecular para acessar o DNA de microrganismos mesmo sem cultivá-los em laboratório.
Com esse novo gene sendo expresso, os cientistas conseguiram multiplicar em até oito vezes o volume de betaglicosidase produzido pela cianobactéria. A Embrapa e a Furg trabalham, agora, para aumentar ainda mais essa produtividade. Outra linha de desenvolvimento é a engenharia de enzimas. Com os protocolos de transformação desenvolvidos, a equipe quer fazer com que os microrganismos gerem betaglicosidases com novas propriedades, que potencializem o rendimento industrial. “A gente pode fazer com que esse microrganismo produza uma molécula ‘engenheirada’ do ponto de vista molecular para que ela seja um produto melhor”, explica o professor Luis Fernando Marins, da Furg.
Mercado em crescimento
O mercado global de enzimas é crescente: estimativas indicam que ele deve atingir a cifra de US$ 5,4 bilhões em 2020. Atualmente, os fabricantes de detergentes são os maiores consumidores desses insumos, que também são muito utilizados na produção de rações, alimentos e bebidas.
Investimentos para reduzir o uso de petróleo e aumentar o de matérias-primas de origem renovável na indústria de transformação estão abrindo espaço para as enzimas   que apresentam ação no processo de degradação da celulose, grupo a que pertencem as betaglicosidases. O que elas fazem é desconstruir a estrutura da celulose em várias etapas até reduzi-la a açúcares, como a glicose, que, por sua vez, podem ser convertidos em diferentes produtos – de etanol a fármacos. Aprimorar a eficiência e reduzir o custo dessas enzimas são desafios considerados peças-chave para o crescimento da chamada bioeconomia.
Atualmente, betaglicosidases têm sido utilizadas nas indústrias de alimentos para clareamento de sucos de frutas e para aumentar a qualidade nutritiva de produtos fermentados. As cervejarias também as empregam, em processos que facilitam a etapa de filtração. Já nas indústrias têxteis, encontram-se diferentes aplicações sobre tecidos de algodão, como a restauração do brilho.
Busca de parceiros
As biofábricas de betaglicosidases baseadas em cianobactérias constituem uma das 34 tecnologias em fase intermediária de desenvolvimento que compõem a Vitrine Tecnológica da Embrapa Agroenergia. O centro de pesquisa busca parceiros para as próximas etapas de trabalho com esse e outros ativos. Bruno Brasil explica que a instituição aposta na inovação aberta para fazer as tecnologias chegarem de forma mais rápida e assertiva ao mercado. “No caso das biofábricas de betaglicosidases, por exemplo, atuar em cooperação com empresas nessas próximas etapas de desenvolvimento pode nos ajudar a direcionar a engenharia das enzimas para diferentes segmentos industriais”, detalha. Para estabelecer as parcerias, indústrias podem se valer de recursos da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii), que pode arcar com até um terço dos custos do projeto.
Cianobatérias e microalgas constituem uma das seis plataformas industriais em que a Embrapa Agroenergia atua. Para conhecer essa e as outras, bem como os eixos de Pesquisa e Desenvolvimento da instituição, acesse a página da Unidade e a Vitrine de Tecnologias, que está disponível para pessoas e empresas interessadas. Confira também a edição da Agroenergia em Revista sobre microalgas.
Vivian Chies (MTb 42.643/SP)
Embrapa Agroenergia

Telefone: (61) 3448-2264

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Pesquisa identifica espécies de peixe usadas como iscas vivas no Pantanal


Foto: Paulo Venero
Paulo Venero -
O número de espécies de tuviras, tipo de peixe elétrico utilizado como isca viva para a pesca e vendido por comunidades ribeirinhas no Pantanal, está sendo revisto por pesquisas da Embrapa. Cientistas descobriram que são comercializadas na região três diferentes espécies desse peixe e o resultado foi publicado na revista norte-americana Zebrafish. Essas descobertas indicam que a legislação estadual, que disciplina a exploração dessas iscas, estaria desatualizada e podem subsidiar políticas públicas envolvendo a atividade econômica.
Os peixes conhecidos no Pantanal como tuviras correspondem a mais de 50% das iscas comercializadas todos os anos, e a legislação estadual que disciplina a captura, transporte, estocagem, comercialização e cultivo de iscas no Mato Grosso do Sul prevê a exploração de duas espécies: a Gymnotus inaequilabiatus e a Gymnotus paraguaensis
Embrapa Pantanal, em parceria com a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), começou a estudar a genética dessas espécies e constatou que, na verdade, as iscas coletadas pertencem a três espécies diferentes: Gymnotus paranguaensis (prevista na legislação), a Gymnotus pantanal e a Gymnotus sylvius. Em três anos de coleta da pesquisa em comunidades ribeirinhas, a Gymnotus inaequilabiatus não apareceu nos estoques separados para venda pelos pescadores profissionais, o que não significa que ela não ocorra no Pantanal.
A pesquisadora Débora Karla Silvestre Marques conta que, a princípio, os pescadores acreditavam que estavam coletando sete espécies porque cores e tamanhos apresentavam variações. Foi por meio da análise genética que as espécies foram identificadas. “Não há apenas as duas descritas na legislação nem as sete que eles imaginavam. O estudo comprova que há três espécies sendo comercializadas”, afirma.
O artigo que caracteriza as três espécies, publicado pela revista Zebrafish, apresenta a descrição cariotípica de cada uma delas. Cariótipos são conjuntos de cromossomos organizados por pares de tamanhos e tipos iguais. Os cromossomos, por sua vez, são as estruturas das células onde se encontram os conjuntos de genes que acumulam as informações genéticas adquiridas durante os processos evolutivos de cada espécie.
O número de cromossomos, seus tamanhos e tipos são informações hereditárias inerentes a cada espécie e, por isso, a descrição dos cariótipos é o primeiro passo para a confirmação genética. Características cariotípicas podem indicar, por exemplo, se há possibilidade de acasalamentos entre espécies diferentes, gerando híbridos e permitindo aos pesquisadores discutir sobre as implicações dos manejos aplicados em comunidades de peixes.
A avaliação do cariótipo indica que cada uma delas tem diferentes tipos de cromossomos, tanto em quantidade como em tamanho e estrutura de diferenciação sexual. A variabilidade genética está sendo estudada pelo mestrado da UFMT (veja texto anexo).
Além da descrição genética, a pesquisa é relevante pelo impacto que pode causar na pesca no estado. A pesquisadora afirma que a continuidade dos estudos permitirá interpretar descrições dentro do contexto da pesca e avaliar se a exploração de certas quantidades de iscas por ano é viável ou não para cada comunidade. “A ferramenta transcende a análise genética. Além da informação sobre a qualidade genética daquela espécie, poderemos inferir sobre a sustentabilidade da atividade econômica ao longo do rio Paraguai, dentro do Mato Grosso do Sul.”
Mapeamento da produção
Conhecer as espécies de tuviras que de fato são vendidas pelas comunidades ribeirinhas trará um novo olhar para essa atividade. A legislação que determina o tamanho mínimo de captura é a resolução n. 3 de 28/02/2011 da Secretaria Estadual do Meio Ambiente, a qual cita as espécies: Gymnotus paraguaensis e a Gymnotus inaequilabiatus.
A espécie Gymnotus sylvius, encontrada na pesquisa, nunca tinha sido registrada no Pantanal. Segundo a pesquisadora da Embrapa, é possível que tenha sido introduzida através de estoques de iscas vivas compradas em outros estados e trazidos à região para pesca.
A partir das informações dessa pesquisa, será gerado um mapeamento da produção de iscas nas comunidades envolvidas, mostrando como elas exploram cada tipo de peixe. Débora conta que as três espécies identificadas ocorrem ao longo do rio. A Gymnotus paraguaensis apareceu em maior quantidade. Assim, já se sabe que não se trata de uma exploração homogênea, o que deve requerer políticas públicas igualmente adaptadas à ocorrência de cada espécie.
Choques
As tuviras são peixes elétricos, da família dos poraquês da Amazônia. Porém, as descargas elétricas que produzem são de pequena intensidade e imperceptíveis pelos humanos. Esses animais têm capacidade de gerar e receptar pulsos elétricos com frequências diferentes, porém específicas, uma vez que as frequências dos pulsos elétricos são diferentes para cada espécie. Esses pequenos choques, emitidos o tempo todo, servem para orientação espacial, para a caça e para o reconhecimento de parceiros na hora da reprodução, evitando a geração de híbridos e de acasalamentos não aproveitáveis.

Novas espécies podem surgir ao longo dos anos
O professor Paulo Cesar Venere, do Departamento de Biologia e Zoologia da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), é parceiro da Embrapa Pantanal nas pesquisas com tuviras. Ele relata como tem se desenvolvido esse trabalho na universidade e explica que, ao longo do tempo, alguns indivíduos evoluem e podem se adaptar ao ambiente, gerando novas espécies. Confira:
Como foi o processo de descrição genética das espécies?
Paulo Cesar Venere: O estudo sobre as iscas vivas já foi tema de duas dissertações de mestrado. A primeira, cujo artigo é esse publicado na Zebrafish, se concentrou em peixes utilizados como iscas vivas na região compreendida entre Corumbá (MS) e o Parque Nacional do Pantanal. Na segunda dissertação, ampliamos as áreas de amostragem para a porção norte do Pantanal, abrangendo comerciantes de iscas das cidades mato-grossenses de Cáceres, Barão de Melgaço, Santo Antônio de Leverger e Poconé.
De maneira geral, o trabalho foi relativamente semelhante, porém, além dos estudos com marcadores cromossômicos e moleculares, foi realizada também uma análise mais detalhada sobre o padrão de coloração das espécies pesquisadas. Os estudos cromossômicos foram utilizados apenas para a detecção das possíveis espécies e confirmaram a ocorrência dos mesmos três cariótipos encontrados na região de Corumbá, porém, com um número bastante elevado de peixes da espécie Gymnotus paraguensis em relação às outras duas espécies (G. pantanal e G. sylvius). Diante disso, demos continuidade aos estudos com uma metodologia bastante interessante: o sequenciamento de um fragmento do gene mitocondrial Citocromo Oxidase I, conhecido no mundo científico como DNA barcode.
O que essa metodologia trouxe de novo?
Paulo: Os estudos com o DNA barcode confirmaram a existência de apenas três espécies nos estoques por nós estudados (o mesmo aconteceu em ambas as dissertações). Porém, pelo fato de terem aparecido algumas dúvidas, pelo excessivo número de G. paraguensis em relação às demais espécies, surgiu a suspeita da possível existência de uma quarta espécie (que poderia ser G. inaequilabiatus) dentre os exemplares de G. paraguensis, uma vez que são muito parecidas e poderiam estar “misturadas” com os lotes de G. paraguensis. Passamos então a detalhar mais o padrão de coloração e realizamos análises mais detalhadas das sequências gênicas amplificadas, mas até o momento não concluímos as análises genéticas dessa quarta espécie já citada para o Pantanal (G. inaequilabiatus). Esses dados estão ainda sendo preparados para uma nova publicação, mas já revelam um padrão de coloração bastante polimórfico para G. paraguensis, como pode ser observado na figura.
Montagem com as três espécies de tuviras comercializadas no Pantanal
Qual a importância da ocorrência dessas espécies no Pantanal sob o ponto de vista evolutivo?
Paulo: É importante se ter em mente que a diversidade de espécies garante maior estabilidade nos ambientes onde elas são encontradas. Isso vale para qualquer ambiente natural e devemos sempre estar atentos. Assim, ao longo da história evolutiva do Pantanal, novos microambientes estão sempre surgindo e desaparecendo ou mesmo se modificando ano após ano. As características ambientais vão então funcionar como balizadoras da seleção natural que conduz ao surgimento de novas espécies ou mesmo à extinção de outras. Isso ocorre constantemente de uma forma natural. Dessa maneira, as espécies nativas possuem um pool gênico bastante grande que contém uma diversidade de informações (diversidade genética) que vai se manifestando geração após geração com ajustes mediados pelo ambiente. Assim, a existência de espécies diferentes, mesmo as de um conjunto em que são bem parecidas como aquelas do gênero Gymnotus, indica que as possibilidades de ocupação de diferentes nichos são grandes e, assim, elas podem conviver sem competições acirradas, garantindo que cada uma tenha as chances necessárias para sobreviver e se perpetuar pelos ambientes nos quais se encontram.
Sabe-se que espécies podem se adaptar à evolução do planeta. Os estudos genéticos com tuviras já realizados indicam alguma forma de adaptação ao longo do tempo?
Paulo: De certa forma, ainda que os estudos não avaliem isso diretamente. No caso específico de Gymnotus paraguensis, notamos que os estoques genéticos estudados parecem estar estruturados regionalmente. Há um trabalho sendo preparado a respeito. Nota-se uma “estruturação populacional” com diversidades genéticas específicas para vários lotes. Essas diferenças ainda não indicam separações em novas espécies, mas sugerem uma redução no fluxo gênico entre vários dos estoques amostrados. Se essa estruturação for mantida ao longo de muitas gerações, ela poderá culminar com a separação desses peixes em novas espécies. Isso é a evolução moldando caminhos para que os peixes continuem ocupando seus lugares de forma a perpetuarem seu poolgênico.
Que tipo de característica genética é considerada para diferenciar uma espécie de outra? Em outras palavras: quando consideramos que uma nova espécie surgiu? É um percentual do material genético que mudou?
Paulo: A identificação confiável de espécies é fundamental para a conservação e exploração sustentável dos recursos naturais. Com os avanços dos estudos em biologia molecular, tem-se utilizado sequências de DNA de genes altamente conservados para identificar espécies biológicas, especialmente quando a identificação com base apenas em dados morfológicos não é possível, por exemplo, larvas e ovos de peixes, fragmentos de tecidos (como de animais procedentes de caçadas ou pesca ilegal).
Nesse contexto, alguns genes mitocondriais (mtDNA) vêm sendo utilizados para o reconhecimento da biodiversidade, uma vez que o mtDNA apresenta apenas 37 genes, relativamente mais simples que os DNAs nucleares, além de apresentar taxas de evolução mais rápidas do que o DNA nuclear, o que resulta no acúmulo de diferenças entre espécies próximas. Diante disso, no sentido de propor um sistema unificado de identificação molecular, alguns pesquisadores propuseram uma metodologia para identificação das espécies a partir de uma sequência curta da região do gene mitocondrial Citocromo C Oxidase subunidade I (COI), hoje amplamente referenciado como DNA barcode. Esse gene foi escolhido por apresentar algumas características favoráveis que não estão presentes nos genes nucleares, como, por exemplo, uma alta taxa mutacional, além de poder ser aplicado na identificação de indivíduos em qualquer estágio de vida ou mesmo espécies morfologicamente difíceis de serem reconhecidas. O DNA barcode preconiza que a variação genética entre diferentes espécies (interespecífica) precisa ser maior que a variação dentro de cada espécie (intraespecífica) e, para peixes, um limite interespecífico considerado suficiente, e que tem sido seguido por vários pesquisadores brasileiros para delimitação de espécies, é de 2%.
Ana Maio (MTb 21.928/MS)
Embrapa Pantanal

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Ciência leva produção de vinhos para o agreste pernambucano



Foto: Edmea Ubirajara
Edmea Ubirajara -
A degustação dos primeiros vinhos elaborados a partir de uvas colhidas em uma área experimental deixa o Agreste pernambucano no limiar de se constituir em uma nova região vinícola do País. Apreciadas em um evento que reuniu cerca de 70 pessoas na Chácara Vale das Colinas, em Garanhuns (PE), as garrafas que iam sendo esvaziadas eram, na expressão do bioquímico Milson Maurício de Macedo, um anúncio de “harmonizar” Garanhuns e uma nova possiblidade de desenvolvimento econômico e social.
A boa qualidade da bebida apresentada serve como indicador do potencial da região para a produção de vinhos finos, vocação que está sendo desenvolvida com o auxílio do trabalho científico. O evento fez parte de um projeto que reuniu pesquisadores e professores da Embrapa Semiárido, do Instituto Agronômico de Pernambuco (IPA) e da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), com o objetivo de avaliar o comportamento agronômico, a qualidade da uva e implementar o processamento de vinhos em regiões vitivinícolas não tradicionais.
Para tanto, foram testadas dez variedades de uvas europeias, e, em pouco mais de três anos de pesquisa no campo, foi possível identificar as que melhor se adaptam às condições de solo e clima do local. Entre elas estão três brancas: Muscat Petit Grain, Sauvignon Blanc e Viognier; e três tintas: Malbec, Cabernet Sauvignon e Syrah.
Com a pesquisa ainda em andamento, a equipe busca agora ajustes no sistema de manejo das videiras. Eles focam aspectos como aumento da produção, práticas de poda e a identificação do momento certo de realizar a colheita, a fim de dispor de frutos com os compostos fenólicos equilibrados na vinificação. “Grande parte da qualidade do vinho depende do manejo das plantas no campo”, explica a pesquisadora da Embrapa Semiárido Patrícia Coelho de Souza Leão, que lidera o projeto.
As uvas das variedades selecionadas foram cultivadas e colhidas no Campo Experimental do IPA, em Brejão, na microrregião de Garanhuns. Depois, foram levadas para vinificação no Laboratório de Enologia da Embrapa Semiárido, em Petrolina (PE), utilizando o método tradicional para vinhos jovens e em escala experimental.
De acordo com a pesquisadora responsável pela vinificação, Aline Telles Biasoto Marques, os resultados mostraram que os vinhos elaborados a partir das uvas da região possuem potencial para a produção em escala comercial. “Eles se enquadraram dentro dos limites da legislação brasileira para vinho fino seco em todos os parâmetros avaliados: teor alcóolico, teor de açúcares, acidez total e volátil e dióxido de enxofre total”, afirma.
Também foram realizadas análises sensoriais pela equipe da Escola do Vinho, do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Sertão Pernambucano (IF Sertão-PE). Somadas à opinião das pessoas que participaram da degustação, elas mostraram que os vinhos de Garanhuns são bastante promissores.
“Os tintos se mostraram fiéis às características varietais e exaltaram a personalidade de vinhos tintos jovens”, avalia a enóloga e professora Ana Paula André Barros, do IF Sertão (PE). “Os brancos, por sua vez, são marcantes como varietais e apresentaram sensações visuais, olfativas e gustativas que podem indicar uma tipicidade do terroir do local”. Terroir, como ela explica, seria a expressão da harmonia entre a cultivar (uva), o solo, o clima e a ação do homem (manejo).
Potencial também para espumantes
“Isto é uma possibilidade porque algumas das variedades analisadas mostraram descritores sensoriais que não são comuns para elas, então podem ser comuns naquele terroir onde foram cultivadas”, enfatiza Ana Barros, que acrescenta: “Arriscaria a dizer que as uvas brancas, além de vinhos tranquilos, também teriam potencial para elaboração de espumantes naquela região.”
Durante a degustação, a sequência de elogios a cada taça servida era concluída com exclamações de surpresa por ser um vinho local, ou com afirmações de que, se fossem comercializados, sem dúvida iriam adquirir o produto. O corretor de seguros Cristóvão Valença de Vasconcelos já antevê a superação da atual falta de referências vinícolas na cidade. “Acho que Garanhuns vai dar um salto, vai ser aquela história de mudar da água para o vinho”, diz.
É no que acredita Clebson Nunes, técnico da Secretaria de Turismo e Cultura de Garanhuns. Para ele, uma “iguaria” como vinhos elaborados localmente é uma atração a mais para a região montanhosa de clima ameno e com uma extensa programação anual de eventos promovidos pela prefeitura e que costuma encher de reservas os hotéis da cidade. Nunes informa que apenas o Festival de Inverno de Garanhuns deste ano trouxe mais de um milhão de pessoas ao município pernambucano que possui pouco mais de 140 mil habitantes.
Opção aos pequenos produtores
Garanhuns está localizada a quase 900 metros acima do nível do mar, com temperatura média anual de 20,6º C. As características climáticas estão em uma transição entre aquelas registradas nas regiões vinícolas do Semiárido brasileiro (Submédio do Vale do São Francisco) e as do Sul e Sudeste. É o que aponta o engenheiro-agrônomo Rodrigo Leite de Sousa em sua dissertação de mestrado “Aptidão de cultivares de videira para produção de vinhos finos na microrregião de Garanhuns-PE: Estudos iniciais”, defendida na UFRPE. Ele identificou, ainda, semelhanças de clima com, ao menos, oito tradicionais produtores de vinhos de cinco países: Espanha (Málaga e Tenerife), Israel (Haifa), Itália (Lecce e Trapani), Tunísia (Bizerte e Nabeul) e Turquia (Izmir).
A pesquisadora da Embrapa Semiárido Patrícia Coelho de Souza Leão considera que desenvolver a vitivinicultura em regiões de vocação natural para o turismo, associado ao clima ameno e invernos mais rigorosos, poderá vir a ser uma nova alternativa de cultivo para pequenos agricultores familiares organizados ou médios empresários.
É o que já ocorre com sucesso na Serra Gaúcha, ao integrar cultivo da videira, enoturismo, e setores de serviços como hotelaria e gastronomia. E, para a pesquisadora, pode vir a acontecer também em Garanhuns, o que seria importante para instaurar um segmento econômico forte, capaz de promover desenvolvimento e gerar emprego.
Avanços alcançados pela pesquisa da Embrapa, UFRPE e IPA têm sido acompanhados de perto pelo empresário e médico oftalmologista Michel Moreira Leite. Cearense de nascimento, residindo em Garanhuns há 14 anos, está no processo de construção de uma vinícola com a implantação de 3,5 hectares com três das variedades de melhor desempenho produtivo e enológico: 40% da área com Muscat Petit Grain e o restante dividido entre Cabernet Sauvignon (30%) e Malbec (30%).
Segundo Michel Leite, o plano é trabalhar com enoturismo, sem a pretensão comercial de ver os vinhos que irá produzir em prateleiras de supermercados. “Com esse pontapé inicial, quem sabe não virão outros investidores?”, sonha ele, já imaginando a abertura de outras vinícolas, que podem se agregar à produção de queijos especiais e de outros derivados das uvas, como geleias, doces, cosméticos, uvas passas, sucos e espumantes.
Ciente do caminho pioneiro que empreendia e da entusiasmada receptividade a cada vinho degustado, assim como da diversidade de sabores e aromas percebidos pelos enólogos e seus convidados, Michel brindou aos pesquisadores e professores da Embrapa, da UFRPE, do IPA e do IF-Sertão com o reconhecimento: “vocês estão fazendo história.”
fonte:
Marcelino Ribeiro (MTb/BA 1127)
Embrapa Semiárido

Telefone: (87) 3866-3734
Fernanda Birolo (MTb/AC 81)
Embrapa Semiárido

Telefone: (87) 3866-3734

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Agropecuária mantém liderança na oferta de emprego em junho
Dados divulgados pelo governo mostram força do agro no total de novas carteiras assinadas
Brasília – A agropecuária foi, mais uma vez, o destaque positivo no saldo de carteiras assinadas em junho. O setor liderou a oferta de vagas com 36.827 novos postos de trabalho, segundo números do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho.
Segundo Comunicado Técnico do Núcleo Econômico da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), os setores do agro que apresentaram melhor desempenho em junho foram café, atividades de apoio à agricultura, laranja e soja.
O cultivo de café, principalmente em Minas Gerais, resultou em 10.804 novas vagas. Já as atividades de apoio à agricultura ofereceram 10.645 novos postos, concentrados especialmente em São Paulo.
Com o cultivo de laranja foram 7.409 vagas, a maior parte em São Paulo. E, por último, o setor de soja criou outros 2.480 postos, liderados por Mato Grosso, segundo a CNA.
Fonte: CNA

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