terça-feira, 8 de maio de 2018

Ciência desenvolve melhorias na fabricação de produtos de babaçu


Foto: Marcelo Cavallari
Marcelo Cavallari -
Adoção de máquina para desflocular o coco de babaçu, destinação do óleo de acordo com a acidez e modernização de equipamentos fabris. Essas foram algumas recomendações feitas por pesquisadores da Embrapa que elaboraram um diagnóstico analítico para a cadeia do babaçu. O trabalho contribui para a conservação da biodiversidade do Médio Mearim, na região dos Cocais, no Maranhão, e para a melhoria da qualidade de vida de comunidades tradicionais que lá habitam.
O Babaçu é uma palmeira de grande importância comercial, pois de seu coco se extrai óleo, farinha de mesocarpo e sabonete, produtos cujos processos de industrialização foram analisados pelos cientistas.
“É cada vez mais necessário avançarmos em pesquisa, validação e adoção de tecnologias para a conservação da biodiversidade, gerando renda para as populações vulneráveis com sustentabilidade. Por isso, estamos trabalhando para agregar valor a um produto do extrativismo, como o babaçu”, conta Sérgio Cenci, pesquisador da Embrapa Agroindústria de Alimentos (RJ), ressaltando que as unidades de processamento são ligadas à Associação em Áreas de Assentamento no Estado do Maranhão (Assema).
O trabalho é desenvolvido em conjunto com órgãos governamentais e da sociedade civil. As ações integram o projeto Bem Diverso, liderado pelo pesquisador Aldicir Scariot, da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia (DF), voltado ao manejo sustentável da biodiversidade brasileira, com financiamento do Fundo Mundial para o Meio Ambiente (GEF) e gestão pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

O babaçu

O babaçu é utilizado há muito tempo por comunidades tradicionais na região da transição entre Amazônia, Cerrado e Nordeste Semiárido, sendo atualmente relevante fonte de renda para mais 300 mil famílias agroextrativistas nos estados do Maranhão, Piauí, Tocantins e Pará.
A quebra manual do coco, para retirada da amêndoa, é realizada principalmente pelas mulheres da região, que comercializam o produto em centenas de povoados, sendo destinado à produção de óleo em indústrias da região. Os frutos do babaçu são também aproveitados integralmente pelas comunidades locais que dele produzem azeite, sabão, farinha e carvão.
 

Sabonete de babaçu deve ter menos acidez

Em análise realizada no Laboratório de Óleos Graxos da Embrapa Agroindústria de Alimentos, sob a responsabilidade da pesquisadora Rosemar Antoniassi, as amostras de óleo de babaçu coletadas no Médio Mearim apresentaram até 1% de acidez, índice elevado para esse tipo de óleo, apesar de aceito pelas normas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
“A acidez se origina do fracionamento das amêndoas após a colheita e quebra do coco, aliada à alta umidade do clima da região, ativando enzimas que liberam ácidos graxos no óleo”, explica a pesquisadora. Para minimizar esse dano, ela recomenda que após a colheita, os cocos sejam quebrados o mais rápido possível e as amêndoas, secas rapidamente. Caso isso não seja possível, que pelo menos sejam separadas as amêndoas quebradas daquelas intactas para a extração de óleo.

Controle da acidez é importante

“O óleo de babaçu é muito similar ao óleo de coco, e há uma grande demanda de mercado. Para isso, é preciso seguir as boas práticas de fabricação para que o produto possa ser direcionado para a alimentação de forma segura”, diz Rosemar. Por enquanto, os óleos com elevada acidez são recomendados para fabricação de sabões e sabonetes.
A pesquisadora também realizou análises no sabonete com óleo de babaçu, produzido de forma artesanal pela Associação de Mulheres Trabalhadoras Rurais de Lago do Junco e Lago dos Rodrigues (AMTR). A análise laboratorial indicou variação no nível de saponificação do óleo e na concentração de soda utilizada. Apesar de também estar próximo do valor indicado pela Anvisa, ela sugere um controle maior na determinação do pH do sabonete, para que não provoque irritação na pele de pessoas sensíveis, como bebês e idosos. Por isso, é recomendável pesar o óleo, determinar a concentração da soda a ser utilizada e calcular a quantidade necessária do ingrediente para a solução.

Modernização de equipamentos

Em relação às instalações da fábrica de sabonete, verificou-se que os equipamentos atuais são antiquados, de manutenção difícil e pouco eficientes. Além disso, comprometem a segurança das operadoras. A recomendação da equipe da Embrapa passa pela modernização da linha de processamento, o que deve gerar impactos positivos na qualidade do produto e na segurança das operações.
Paralelamente, também está sendo desenvolvida uma ração animal com torta de babaçu, em ação liderada pelo pesquisador Joaquim Costa, da Embrapa Cocais, em parceria com o Instituto Federal do Maranhão (IFMS). Trata-se de uma iniciativa que agregará valor a um subproduto do processamento do óleo e contribuirá para gerar renda e diminuir a dependência de insumos de outras regiões na elaboração do produto. 

Fábrica de farinha de babaçu

A fábrica de farinha de mesocarpo de babaçu analisada pela equipe da Embrapa pertence à Cooperativa dos Pequenos Produtores Agroextrativistas de Esperantinópolis (Coopaesp). A instituição reúne 80 cooperados e é associada à Assema. Todo o processamento, desde a extração à embalagem do produto, é feito por cooperados e seus parceiros. Atualmente, a Coopaesp produz e comercializa 8,5 toneladas de farinha de mesocarpo por ano.
Durante o trabalho, foram avaliadas instalações, equipamentos e o fluxo de entrada e saída de produto e pessoal. Foram observadas as etapas de recepção, seleção, peneiramento e embalagem e expedição, operação da fornalha e do equipamento de secagem, bem como a operação de higiene e limpeza das instalações e equipamentos. Também foram avaliados aspectos comportamentais que ocorrem durante o processamento.
Os especialistas da Embrapa fizeram uma série de recomendações, entre elas a necessidade da utilização de máquina para desflocular os cocos de babaçu, descascados manualmente. “A utilização do equipamento contempla uma das etapas mais sacrificantes do ponto de vista do relato das mulheres da cooperativa. Para a retirada manual dos flocos é necessário esforço físico intenso, com consequências de dores musculares nos braços ao final do processo”, explica Roberto Machado, analista da área de Transferência de Tecnologia da Embrapa Agroindústria de Alimentos.
A recomendação da utilização de equipamento, em desenvolvimento na Embrapa Cocais, justifica-se, portanto, por questões ergonômicas, de eficiência do processo e da otimização do tempo para as operadoras se concentrarem tanto nas demais etapas já realizadas, como nas recomendadas como ações de melhoria na higienização das instalações.
“Não foram recomendados equipamentos para a atividade de descasque, por ser um momento importante para a convivência social das quebradeiras. Quando as trabalhadoras se reúnem para esse trabalho, elas trocam ideias e repassam seus conhecimentos”, completa Roberto Machado.

Protótipo de máquina para desflocular

Já existe em operação um protótipo para desflocular o coco após o descascamento desenvolvido pelo pesquisador José Frazão, da Embrapa Cocais, em Itapecuru Mirim, no Maranhão.
Outra recomendação dos especialistas foi com relação aos rótulos das embalagens da farinha de mesocarpo, para atender as exigências dos órgãos de regulamentação, a partir de análises físico-químicas de composição nutricional realizadas na Embrapa Agroindústria de Alimentos. “Essa farinha rica em amido é muito utilizada para a elaboração de mingaus e achocolatado. Há uma demanda de mercado em todo o território nacional que está começando a ser atendida”, conta André Dutra, analista da área de Transferência de Tecnologia da Embrapa Agroindústria de Alimentos.
 

Pesquisa participativa 

Para agregação de valor e geração de renda para as comunidades locais, tudo começa com a coleta do coco de babaçu nas propriedades de agricultores familiares. A quebra para a separação da amêndoa e da casca é realizada de forma artesanal, com o apoio de um machado, pelas mulheres da região.
Em cada coco de babaçu são encontradas de uma a seis amêndoas. O coco de babaçu possui quatro camadas, todas aproveitáveis. O epicarpo, a camada externa mais fibrosa, vira palha ou adubo vegetal. O mesocarpo, a parte interna branca, quando moído, gera uma farinha rica em amido. A terceira camada interna, mais dura, vira carvão vegetal, amplamente utilizado pelas residências rurais no Maranhão, com mercado crescente para uso industrial. E da amêndoa se extrai o óleo, sendo a torta restante, utilizada para ração animal.
De acordo com o último censo agropecuário brasileiro realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2006, cerca de 175 mil famílias no Maranhão cultivavam roçados tradicionais e 40 mil eram extrativistas do babaçu.
Nos últimos anos, a produção média de amêndoas de babaçu no Médio Mearim foi de 20 mil toneladas/ano. “Nessa região, em 2017, o babaçu gerou uma renda de cerca de 97 milhões de reais para as comunidades locais, proveniente dos produtos comercializados, consumidos e utilizados pela população local”, aponta Roberto Porro, pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental, que coordenou uma pesquisa que envolveu mil famílias de 18 municípios do Médio Mearim.
A percepção generalizada por parte dos entrevistados, contudo, é de redução da produção e disponibilidade de babaçu. “Comparando-se a situação atual com de uma década atrás, mais de 80% das famílias indicaram um menor envolvimento na atividade extrativa, e, portanto, uma menor produção familiar”, completa o pesquisador. Nesse cenário, as cooperativas e associações de produtores têm desempenhado papel importante na agregação de valor ao produto. A Cooperativa dos Pequenos Produtores Agroextrativistas de Lago do Junco, por exemplo, produz e exporta anualmente mais de 100 toneladas de óleo de babaçu com certificação orgânica, para empresas de cosméticos que valorizam a origem e as características desse produto extrativo.
 “Aprendemos nos diálogos com as comunidades tradicionais a desenvolver um trabalho de forma participativa. As pessoas desses locais são envolvidas ativamente em todas as fases da pesquisa e desenvolvimento, buscando a produção conjunta de conhecimento e o atendimento das demandas levantadas”, conta o analista da Embrapa Cocais Marcos Miranda Toledo.
Por essa perspectiva, no extrativismo do babaçu são respeitados, por exemplo, os hábitos culturais das quebradeiras do coco, buscando tecnologias e práticas de fabricação que incrementem a produção com mais qualidade e segurança. Busca-se também o manejo integrado agro-extrativo-pastoril, que alia o extrativismo do coco de babaçu, a produção agrícola (arroz, mandioca, milho, feijão) e florestal à criação de animais (bovinos, suínos e caprinos). 
Aline Bastos (MTb 31.779/RJ)
Embrapa Agroindústria de Alimentos

Telefone: (21) 3622-9739
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quinta-feira, 5 de abril de 2018

03/04/18   Pesca e aquicultura

Resíduos de bananeira são eficazes no controle de parasitos do tambaqui


Foto: Jony Dairiki
Jony Dairiki -
Estudo realizado por pesquisadores da Embrapa Amazônia Ocidental (AM) comprovou que a utilização de subprodutos de bananeira (folhas, engaço e coração) na ração pode controlar o monogenea, um parasito que ataca as brânquias, estruturas usadas pelos peixes para respirar. A pesquisa pode impactar positivamente a produção do tambaqui (Colossoma macropomum), peixe nativo mais cultivado no Brasil, já que a doença causa redução de peso, lesões e até a morte. Além disso, representa benefícios para os piscicultores, que poderão economizar na aquisição de medicamentos anti-helmínticos, e para o meio ambiente, pois se trata de uma solução natural. A solução também promove agregação de valor aos resíduos da bananeira, usados hoje praticamente apenas como adubo.
O estudo faz parte de um projeto maior, liderado pela pesquisadora da Embrapa Cheila Boijink, voltado não apenas ao controle desse parasito, mas também ao desempenho zootécnico do tambaqui. Segundo a cientista, o peixe infectado fica estressado, gasta muita energia tentando se livrar do parasito e, consequentemente, perde peso. A presença do monogenea pode levar os animais à morte por asfixia, ou ainda provocar lesões facilitando a penetração de agentes secundários, como fungos e bactérias.

Matéria-prima abundante

Uma das vantagens de utilizar resíduos de bananeira é a grande disponibilidade no Brasil, pois a bananicultura é feita em quase todas as regiões, mesmo em condições ecológicas desfavoráveis. A banana é constituída por carboidratos, lipídeos, proteínas e vitaminas. Durante a produção, é gerada grande quantidade de massa verde, que além de nutritiva para alimentação animal, apresenta finalidades terapêuticas.
Uma delas é o alto teor de taninos em sua constituição, os quais apresentam atividade anti-helmíntica. Por isso, já são utilizados como antiparasitário na produção de ração para algumas espécies de animais, como suínos, bovinos e caprinos. “Isso nos incentivou a testar os resíduos da bananeira com os peixes”, conta Cheila.
O experimento foi feito durante 60 dias. O próximo passo da pesquisa, será avaliar se os resíduos de bananeira incorporados na ração desencadearam alguma alteração na fisiologia do peixe, devido principalmente à presença do tanino. “Estamos fazendo uma série de testes em laboratório com as amostras de material biológico coletadas no fim do período experimental”, informa a pesquisadora.

 

Produção sem defensivos químicos

Os resíduos de bananeira utilizados no experimento foram coletados na propriedade de um produtor parceiro da pesquisa, sem o uso de defensivos agrícolas, o que confere maior veracidade ao uso do material. “Foi utilizada a cultivar [de bananeira] BRS Conquista, que é resistente a doenças, para impedir a interferência de produtos químicos na composição da farinha usada na ração”, explica Jony Dairiki, pesquisador da Embrapa e membro do projeto.
Os animais experimentais aceitaram as rações e o consumo foi satisfatório. Houve crescimento e foram observadas diferenças significativas entre os níveis de inclusão e os resíduos avaliados. De acordo com Dairiki, há poucos estudos com subprodutos de banana na alimentação de monogástricos, principalmente em aves e peixes. Os trabalhos existentes demonstram resultados satisfatórios em diferentes categorias animais, principalmente em ruminantes.
A utilização desses resíduos da agroindústria pode trazer benefícios para a composição das dietas, porém ainda são necessários estudos em monogástricos, como análises econômicas de consumo de nutrientes e de digestibilidade para indicar com precisão a eficiência da utilização desse subproduto.

 

Piscicultura é atividade em franco crescimento

A produção de peixes cultivados vem apresentando maior taxa de crescimento em relação a outros produtos de origem animal. Isso se deve ao aumento do consumo de pescado pela população e, como a pesca apresenta limites para suprir a crescente demanda, a piscicultura tem ganhado importância.
Portanto, tecnologias devem ser desenvolvidas visando maior desempenho dos animais e melhores condições sanitárias, pois os cultivos comerciais trabalham com densidades mais elevadas do que as encontradas na natureza, facilitando a disseminação de parasitos e doenças.
A alimentação animal equivale a 70% dos custos da produção e as pesquisas têm se voltado para ingredientes alternativos que possuam alta palatabilidade, digestibilidade e valor nutricional. No entanto, a grande maioria dos alimentos testados para as espécies apresenta disponibilidade restritamente local e volume de produção insuficiente para sua incorporação pelas indústrias de ração, fazendo-se necessária a avaliação de ingredientes com maior potencial de utilização para a alimentação.


Produção do tambaqui

O tambaqui (Colossoma macropomum) é a espécie nativa mais cultivada no Brasil. Segundo dados de 2013 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a produção é de 88,7 mil toneladas, desse total, 55,7 mil t são provenientes da Região Norte e 11,6 mil t são oriundas do estado do Amazonas.
É uma espécie de fácil obtenção de juvenis, bom potencial de crescimento, alta produtividade e rusticidade. Apresenta bom desempenho em criações intensivas, podendo alcançar três quilos de peso em 12 meses de criação em sistemas de viveiros/barragens. Porém, nesses sistemas, os animais são expostos continuamente a vários fatores de estresse, como alterações na química da água, altas densidades de estocagem, manuseio excessivo e uso indiscriminado de drogas no tratamento de doenças.
Na Região Norte o cultivo do tambaqui é facilitado e vantajoso pelas condições climáticas locais. Diversos sistemas de produção vêm sendo propostos para o cultivo no Amazonas, dentre eles, os viveiros escavados, os viveiros/barragens, os tanques-rede e os canais de igarapé. Os melhores resultados têm sido obtidos em viveiros escavados com a utilização de aeração


Produtividade do tambaqui no Amazonas

A produtividade média de tambaqui do estado do Amazonas é de cinco toneladas por hectare ao ano, considerada muito abaixo do potencial produtivo da espécie. A Embrapa disponibiliza tecnologias para produção intensiva de tambaqui em tanque escavado com aeração que, quando adotadas adequadamente, podem aumentar a produtividade em até quatro vezes, atingindo até 24 t/ha. Essa elevada produtividade por unidade de área com uso de teologias permite a produção em apenas um hectare do equivalente à produção de quatro hectares sem uso de tecnologias.
O aumento significativo na produtividade proporciona diretamente redução no desmatamento por precisar de menos áreas para manter a quantidade produzida. Outro ganho extraordinário proporcionado pela pesquisa foi a redução do ciclo de criação do tambaqui de três anos para apenas dez meses.
Maria José Tupinambá (MTb: 114/AM)
Embrapa Amazônia Ocidental

Telefone: (92) 3303-7898
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quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Consórcio milho e capim-massai garante silagem com menor custo para produtores de ovinos no Semiárido


Foto: Roberto Cláudio Pompeu
Roberto Cláudio Pompeu -
Experimento realizado por pesquisadores da Embrapa Caprinos e Ovinos (CE) concluiu que o plantio consorciado de milho e capim-massai é uma opção economicamente vantajosa para alimentação de rebanhos de ovinos na região semiárida do Brasil.
Em um hectare com as duas culturas, é possível produzir biomassa de forragem para manter produtivos 53 ovinos de corte ou leite, com peso corporal médio de 25 kg, durante oito meses, período que corresponde à época de estiagem. Os resultados indicaram que produzir o volumoso em sua propriedade a partir do plantio de milho e capim-massai é 31,35% mais barato para o criador do que adquiri-lo no comércio. A partir do segundo ano, sem o custo com o cercamento da área, essa economia chega a 78%.
Os custos do plantio conjunto de milho e capim-massai para produção de silagem são maiores que para o cultivo do milho solteiro, porque incluem a compra das sementes do capim e o cercamento para impedir o acesso dos animais à área de produção do volumoso e ao silo. “Se for uma área mais isolada, à qual os animais não tenham acesso, não é necessário cercar e pode-se eliminar esse custo”, explica o engenheiro-agrônomo Roberto Pompeu, pesquisador da Embrapa em Sistemas de Produção de Forragens.

Menos erosão

Mesmo com esses custos iniciais, o consórcio demonstrou vantagens, tais como a possibilidade de adotar outras estratégias para o uso da terra, entre elas o pastejo dos animais após a colheita do milho e a cobertura de matéria morta para o plantio direto da cultura anual, que diminui a erosão e proporciona sustentabilidade do agroecoecossistema.
De acordo com Pompeu, já existem outros trabalhos que indicam o capim-massai como uma boa alternativa para o Semiárido. “A Embrapa já vem trabalhando há muito tempo com esse capim em sistemas agrossilvipastoris com bons resultados”, conta.
Entre as características da forrageira estão a tolerância ao déficit hídrico, elevado rendimento de matéria seca por área, porte baixo, compatível com o pastejo de pequenos ruminantes; qualidade nutricional e alta população de plantas. Outra vantagem interessante é que a planta produz mais folhas que hastes (colmos), as folhas são mais nutritivas além de ser a parte preferida pelos animais.
“Como o capim produz bem no período chuvoso, o criador pode deixar o rebanho no pasto nesse período e tirá-lo durante a seca. Com uma adubação adequada, no período chuvoso irá rebrotar”, explica o pesquisador.

Pesquisas para diversificar a alimentação dos rebanhos

Em um contexto de criação predominantemente extensiva de animais e limitação de recursos hídricos, condições que dificultam a manutenção de pastos cultivados para rebanhos, a produção de animais no Semiárido brasileiro ainda é dependente da vegetação nativa para garantir recursos alimentares.
Embora a Caatinga forneça diversas opções de plantas forrageiras, há pesquisas científicas para aprimorar a oferta de alimentos, seja por meio da avaliação de cultivares de outras regiões tolerantes a condições de seca, seja por meio de ações de melhoramento genético vegetal que resultem, no futuro, em cultivares próprias para as condições do Semiárido brasileiro.
Na Embrapa Caprinos e Ovinos, as equipes de pesquisa nas áreas de Melhoramento Genético Vegetal e de Forragicultura têm se integrado na busca de respostas para essas duas vertentes. Cultivares de espécies forrageiras como sorgo e milheto, que demostraram bom desempenho em outras regiões do País ou do exterior, também já estão em teste.

De olho no girassol no Semiárido

Outra cultura anual objeto de estudos é o girassol, de boa tolerância à seca e com indicadores de contribuição para a qualidade nutricional da silagem: o aporte de energia para uma ração é considerado semelhante ao do milho, espécie mais utilizada para a produção de alimentos volumosos no Semiárido.
“Todos esses fatores são avaliados: a qualidade nutricional, o desempenho em campo, a tolerância à seca. Assim, esperamos dar respostas aos produtores, de acordo com um objetivo final, se a forrageira será usada para produção de silagem, de feno ou fornecida a fresco”, explica o biólogo Fernando Guedes, pesquisador da área de Melhoramento Genético Vegetal. Segundo ele, os testes indicam, inclusive, possibilidades de combinação, como a de uma silagem que utilize milheto com girassol, aliando a tolerância à seca da primeira espécie e os benefícios nutricionais da segunda.
Outra frente de pesquisa na área é a de avaliação de plantas gramíneas como culturas perenes, para formação de pastagens: os materiais observados são capins Panicum e Andropogon, testados na região Centro-Oeste. Neste caso, os testes também incluem coleções de germoplasma, para realização das avaliações em nível regional, chamadas de VCU (valor de cultivo e uso).
“Em nossa busca por materiais adaptados, estão tanto aqueles com histórico de potencial em outras regiões, como materiais novos, que ainda não estão nas linhas de programas de melhoramento de cultivares no Brasil, mas apresentaram potencial em outros países, como nas zonas semiáridas da África, por exemplo”, cita a engenheira-agrônoma Luice Bueno, pesquisadora da área de Melhoramento Genético Vegetal da Embrapa Caprinos e Ovinos.
Pesquisas com forrageiras adaptadas para o Semiárido incluem também espécies como o feijão-guandu, gliricídea e leucena, compondo um quadro de diversificação de modo a permitir aos produtores rurais várias opções de plantio para a reserva alimentar na propriedade. “São vários cenários, em que avaliamos a melhor forma de manter qualidade na produção de silagem, qual gramínea seria melhor para um diferimento [manejo em que se escolhe uma área da propriedade para excluir do pastejo imediato de animais, ficando como reserva alimentar para outro período], além de outras questões”, explica Fernando Guedes.

Alternativas para plantio consorciado

O plantio consorciado de culturas anuais com gramíneas e leguminosas, por exemplo, também tem merecido atenção das equipes de pesquisa, por serem alternativas de rendimento promissoras na realidade do Semiárido brasileiro. As estratégias de consórcios são variadas. Em alguns experimentos são combinadas culturas anuais (milheto, milho ou sorgo) com gramíneas, possibilitando fornecimento de forragens distintas em diferentes períodos do ano, uma vez que o ciclo de culturas anuais, entre elas o milheto, é mais precoce que das gramíneas.
Em outros casos, a estratégia do consórcio é orientada para silagem de melhor qualidade nutricional, quando se combina uma dessas três culturas anuais com o feijão-guandu — em que este é inserido para garantir reserva de proteína — ou ainda o consórcio de milheto com girassol, já citado. Por sua vez, gramíneas podem ser consorciadas com plantas arbóreas de alto potencial forrageiro na Caatinga, como a leucena e a gliricídia.
Segundo o pesquisador Fernando Guedes, no Semiárido, ambiente de certo risco, com fatores como a incerteza de períodos chuvosos dentro da média histórica, essa diversificação é muito importante no contexto da segurança alimentar de rebanhos. “Não é fácil afirmar para o produtor rural que apostar em um só material é certeza de boa produção. A estratégia é diversificar, tanto com o plantio de diferentes forrageiras em diferentes áreas, como com a possibilidade dos consórcios”, frisa.

Rotação para a sustentabilidade

Outros benefícios dos consórcios são de natureza ambiental e de segurança biológica, conforme aponta a pesquisadora Luice Bueno. “Uma rotação de culturas contribui com a manutenção do solo, com a reposição de nutrientes. E quando você adota uma monocultura, há o risco de chegar uma praga que ataque essa cultura praticada em larga escala, fazendo o produtor perder tudo”, destaca ela.
A pesquisadora acrescenta que os consórcios são úteis aos programas de melhoramento vegetal por permitirem observar manejos diferentes para os materiais genéticos e, assim, traçar recomendações mais precisas sobre o uso em campo. “Às vezes existem materiais ótimos para adaptação ao Semiárido, mas, de cada cinco deles, três têm bom desempenho quando plantados solteiros e outros dois vão bem solteiros, mas vão melhor ainda quando consorciados com outras espécies. É uma etapa em que vemos como cada material se adapta melhor às formas de cultivo e utilização”, exemplifica ela.

Melhoramento genético vegetal

As estratégias de pesquisas com as forrageiras no Semiárido brasileiro incluem não somente a avaliação de cultivares já testadas em outras regiões, mas também a implementação de ações de melhoramento genético vegetal, que possam, em um prazo de tempo mais longo, resultar em novas cultivares recomendadas para a alimentação de rebanhos na região.
De acordo com Guedes e Luice, esses resultados de novas cultivares forrageiras a partir das ações de melhoramento podem levar de dez a 15 anos para conclusão, período em que é feita escolha de material, cruzamentos, variabilidades e novas populações, observadas em diferentes ciclos. Na Embrapa Caprinos e Ovinos, já foram iniciados experimentos para melhoramento do feijão-guandu e de algumas gramíneas, como a Urochloa, com perspectiva de desenvolver novas cultivares.
Essas etapas dos programas de melhoramento são fundamentais não somente para a indicação de resultados, mas também para registrar o histórico de genealogia exigido pelo mercado formal para uma futura comercialização de sementes e mudas.
Adilson Nóbrega (MTb 01269/CE)
Embrapa Caprinos e Ovinos

Telefone: (88) 3112.7413
Adriana Brandão (MTb 01067/CE)
Embrapa Caprinos e Ovinos

Telefone: (88) 3112.7463

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Com ajuda da ciência, primeiras vinícolas gaúchas de pequeno porte são legalizadas


Foto: Viviane Zanella
Viviane Zanella -
A partir da próxima safra, um grupo-piloto de 11 pequenos vinicultores da Serra Gaúcha sairá da ilegalidade e poderá vender e divulgar seus produtos. A conquista é fruto de um trabalho realizado desde 2010 por oito instituições, com a articulação da Embrapa Uva e Vinho (RS), Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin) e Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Rio Grande do Sul (Emater/RS-Ascar). Além de viabilizar uma lei feita sob medida para produtores da região, a Lei do Vinho Colonial, o grupo estruturou um protocolo de adequação que foi decisivo para legalizar a produção. Boas práticas, tais como uso de piso impermeável, paredes laváveis, controle de pragas (portas que impeçam a entrada de roedores e insetos, por exemplo), rastreabilidade e procedimentos para higienização, foram detalhadas na Instrução Normativa 05/2000 com a finalidade de auxiliar vinicultores a adaptar sua produção. Todo o conteúdo foi elaborado e proposto por cientistas e técnicos da área.

Conhecimento tradicional preservado

Os pequenos produtores são, na maioria, descendentes de imigrantes italianos que trouxeram na bagagem a fórmula para produzir o próprio vinho, considerado um item básico na sua alimentação. Com o aumento do enoturismo, a procura dos turistas para conhecer, degustar e levar para casa um pouco do vinho denominado colonial ou artesanal podia deixar o pequeno produtor à margem da lei, pois a necessidade de abertura de empresa para formalizar a atividade vinícola representava uma barreira.
Thompsson Didoné é técnico do escritório municipal da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Rio Grande do Sul (Emater/RS-Ascar), de Bento Gonçalves, e relata que o “saber elaborar vinho” foi uma herança repassada de geração para geração, em especial na Serra Gaúcha, que detém hoje 85% da produção nacional de vinho e derivados, segundo dados do Ibravin. Na região, muitos pequenos produtores tornaram-se grandes empresários do mundo do vinho, mas a grande maioria continua sendo de pequeno porte.  “Resgatar o vinho colonial é uma espécie de resgate cultural dos nossos imigrantes. É também uma forma de valorização e legalização para que esse saber-fazer tradicional se mantenha forte. É a concretização de um sonho”, pontua ele, que há 15 anos atua na extensão rural e foi um dos grandes incentivadores da ação conjunta.

Produtores capacitados

Didoné conta que o processo para legalizar o grupo-piloto dos 11 pequenos produtores demandou esforços para viabilizar essa regularização em três eixos: tributário, sanitário e ambiental. “A legislação é direcionada aos pequenos produtores de agricultura familiar, que elaboram até 20 mil litros de vinho por ano e possuem 100% de uvas próprias. Eles precisam seguir normas específicas para garantir a qualidade do produto e adequadas à sua realidade”, conta Alexandre Hoffmann, articulador do grupo de trabalho e pesquisador da Embrapa Uva e Vinho. Mesmo tendo a lei aprovada, o grupo precisou continuar o trabalho e orientar e capacitar pequenos produtores, desde o repasse de tecnologias para a elaboração da bebida até o apoio para adequação das pequenas cantinas atendendo as exigências legais.
Segundo Hoffmann, o grupo colaborou tecnicamente com o Congresso Nacional para a criação da Lei do Vinho Artesanal/Colonial (nº 12.959/2014), que dá visibilidade e segurança ao produto elaborado por agricultor ou empreendimento agrícola familiar. A lei estabelece as orientações que o produtor deve adotar e se baseia, essencialmente, na Lei do Vinho (Lei nº 7.678/1988) e em um conjunto de instruções normativas para a elaboração e comercialização do vinho. “Em outras palavras, a legislação prevê que o produtor atenda aos padrões de identidade e qualidade do vinho, com responsabilidade técnica e com volume limitado de produção, especificamente para os produtores que se enquadram no Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf)”, destaca. “Com a adequação, os produtores terão segurança jurídica e os consumidores, maior confiança na qualidade do vinho que adquirem”, resume o especialista da Embrapa.

Enoturismo fortalece resgate das tradições

Conforme prevê o Programa, no eixo tributário, foram feitos ajustes para que produtores que elaboram até 20 mil litros de vinho por ano, com uvas provenientes exclusivamente na sua propriedade, possam utilizar o bloco do produtor rural para a comercialização, que deverá ser feita na propriedade, em feiras de produtores ou em cooperativas e associações às quais esteja ligado. Na questão ambiental, a própria equipe técnica da Emater desenvolveu uma planta modelo para tratamento de efluentes. A adoção desta planta já é pré-aprovada para licenciamento pela Secretaria do Meio Ambiente do RS.
Já na questão sanitária, independentemente de ser elaborado por pequenos ou grandes estabelecimentos, por ser um produto para o consumo humano, devem ser seguidas as normas de boas práticas para garantir um alimento seguro. Assim, o grupo de trabalho com coordenação do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin) desenvolveu uma lista de requisitos com base na legislação vigente, porém mais detalhada e com explicações específicas para a realidade do vinho colonial. Também foi estruturado um modelo de manual de boas práticas a partir do PAS – Uva para Processamento, porém de forma simplificada.  “Esse trabalho foi desenvolvido e implementado com alguns dos produtores do grupo-piloto para chegar a um formato com boa aplicabilidade.  A lista de requisitos agora estará à disposição em cartilha orientativa, comenta a consultora do Ibravin Janine Basso Lisbôa. Produtores de outros estados poderão usar o material como referência, mas devem se adequar às políticas da agroindústria familiar de cada estado.
Outras normas foram mantidas, como a obrigatoriedade do rótulo, no qual deverá constar a variedade da uva, o nome fantasia do estabelecimento, a data de elaboração e o número da Declaração de Aptidão ao Programa Nacional de Agricultura Familiar (DAP), que foi um ajuste necessário para eliminar a necessidade de formalização de uma empresa.
Visando tornar o processo mais eficiente, as equipes da Superintendência do Ministério da Agricultura do Rio Grande do Sul e da Secretaria do Estado da Agricultura fizeram visitas extraordinárias que serviram para ajustar as questões estruturais dos produtores que manifestaram interesse em se registrar. “Acompanhamos a visita aos 11 produtores que integram o projeto-piloto e atentamos aos itens necessários para a obtenção do registro”, complementa Didoné. A partir disso, a equipe de extensionistas da Emater/RS incluiu no seu calendário uma série de visitas de rotina e acompanhamento dos ajustes nas vinícolas coloniais participantes para orientar os produtores. “O registro é a realização de um sonho, que com certeza vai tirar da informalidade muitos pequenos produtores que poderão legalizar seus empreendimentos”, avalia Didoné.
O grupo de instituições foi mobilizado pela Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Rio Grande do Sul (Emater/RS-Ascar) e, além da Embrapa, reuniu representantes do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS), do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), da Prefeitura de Bento Gonçalves (RS) e das secretarias estaduais de Desenvolvimento Rural, Pesca e Cooperativismo e de Agricultura, Pecuária e Irrigação do Rio Grande do Sul.

Primeiras vinícolas legalizadas

Auri Flâmia, da Linha de São Valentim, no interior de Bento Gonçalves, foi um dos primeiros produtores participantes do projeto que conseguiu a legalização da sua vinícola, a Piccola Cantina. Neto de imigrantes italianos, em conjunto com a esposa Diva, cultiva 16 hectares de uvas comuns, como Niágara e ‘BRS Lorena’, e elabora vinhos para consumo próprio e da família e também vende parte da fruta para consumo. Já tinham praticamente toda a estrutura pronta, mas, mesmo assim, precisaram investir cerca de R$ 50 mil para adequar a estrutura conforme determina a norma. “Não me preocupo quando vou ter o dinheiro de volta, mas gosto de produzir vinho e agora que vai ser legalizado fica mais tranquilo. Dá orgulho fazer um bom produto que o pessoal gosta”, comenta Flâmia.
Com a participação da filha mais velha, que é a responsável técnica do estabelecimento,  planejam já na próxima safra fazer os 20 mil litros de vinhos autorizados e comercializar na vinícola ou em feiras de produtores. “Vamos vender em garrafões de cinco litros ou em embalagens pet (plástico) de dois litros, que todos preferem por ser mais práticas e não precisar devolver”, comenta. Sonham que no futuro a propriedade passe a integrar uma rota turística do município, pois os 3,5 km de estrada de chão que separam a BR 470 da sua propriedade proporcionam lindas paisagens, como a vista do Vale da Ferradura.
O produtor Aldo Lazzari, de Garibaldi, não fazia parte do grupo-piloto, mas, em função da urgência devido à fiscalização, recebeu um apoio técnico do grupo gestor e obteve também o registro.

Vinho e turismo

Os irmãos Batistelo, Mateus, Maurício e Marcelo, proprietários dos Vinhos Don Bernardo, localizados no Vale dos Vinhedos, em Bento Gonçalves, aderiram ao projeto de legalização desde o princípio, ainda em 2010, junto com outros 82 produtores do município. Segundo contam, a caminhada foi longa, mas cheia de aprendizados. “A Emater nos incentivou muito e mostrou que íamos ter uma renda a mais ao fazer o vinho e comercializar. E, o melhor, fazer o que a gente gosta”, comenta Mateus.
Eles já tinham o pavilhão, mas foram necessários muitos ajustes que somaram cerca de R$ 50 mil. Com uma produção anual de cinco mil litros de vinho, eles esperam recuperar o investimento em dois anos. “Na frente da antiga casa do nosso bisavô, que fica na frente da vinícola, vamos construir um varejo e também um espaço para os turistas poderem se sentar, beber e aproveitar a vista”, conta Mateus, que é o responsável pela comercialização dos vinhos.
Os irmãos produzem vinhos para a família desde 1995 e contam que participar deste projeto do resgate e legalização já qualificou a produção. Desde 2013, fizeram a conversão dos parreirais para o sistema de espaldeira, que garante uvas de qualidade para a elaboração do vinho. “Toda a parte técnica, do vinhedo à enologia, foi aprendido com a Embrapa e com a Emater. Eles que nos incentivaram a mudar para espaldeira que ia melhorar o vinho”, comenta Marcelo, responsável pelo gerenciamento dos parreirais. Atualmente, eles cultivam as variedades Tempranillo, Marselan, Malbec, Shiraz e Merlot para a elaboração dos seus vinhos.
Mesmo estando fora de uma rota turística conhecida, Vitório e Ivone Somensi, da Cantina Porão do Vale, elaboram vinho há sete anos e, desde que integram o projeto, já conseguem perceber a evolução na sua produção, nos últimos cinco anos. Eles investiram 70 mil reais nos ajustes necessários e estão confiantes que irão recuperar o investimento em até três anos com a venda dos produtos. “Uma agência de turismo nos procurou para organizar visitas. Estão só esperando legalizarmos a estrutura e finalizar o nosso varejo para começarem a trazer os turistas”, contam animados. Além de vinhos de uvas viníferas, como a Merlot, eles também produzem o tradicional vinho de Isabel e Niágara. As bebidas serão comercializadas em garrafas e garrafões de cinco litros.

Próximos passos

Segundo dados da área de Transferência de Tecnologia da Embrapa Uva e Vinho, cerca de três mil pessoas já foram treinadas, muitos dos quais hoje são grandes produtores. Além de coordenar esta ação de legalização, na percepção do pesquisador Alexandre Hoffmann, ainda há muito trabalho para as próximas etapas da pesquisa, como desenvolver e repassar tecnologias para qualificar o vinho colonial.
O Rio Grande do Sul concentra a maior parte dos produtores de vinho colonial, mas, segundo projeções, estima-se que cerca de quatro mil famílias produzam e vendam, sem registar, seu vinho no Brasil. “Conhecemos empreendedores também nos estados de Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo, que, com certeza, também se beneficiarão com os avanços da lei e das tecnologias”, avalia Hoffmann. A expectativa do grupo que coordenou o projeto-piloto é que essa experiência possa guiar e facilitar a legalização desses produtores, como um importante fator de renda, sustentabilidade e manutenção da tradição da elaboração de vinho.
Fonte:Viviane Zanella (MTb 14.400/RS) 

Aplicativo auxilia na identificação de inimigos naturais de pragas agrícolas



Foto: Divulgação
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Uma das maiores dificuldades para o produtor é identificar os inimigos naturais das pragas que atacam sua lavoura, especialmente para quem pretende utilizá-los como método de controle, pois esses aliados naturais podem ser confundidos com as próprias pragas. Para facilitar a identificação, especialistas da Embrapa Agrobiologia (RJ) desenvolveram um aplicativo com o qual é possível acessar imagens dos agentes naturais de controle mais comuns. O Guia InNaté gratuito e está disponível para download na loja de aplicativos Google Play.
Com um smartphone em mãos, o produtor pode comparar um inseto coletado em campo com a galeria de imagens. Além disso, pode ir para o campo, fotografar um inseto presente na sua lavoura e comparar no mesmo momento a foto tirada com a câmera do celular com as imagens da galeria do Guia InNat. Além de fotos, o aplicativo contém informações sobre cada grupo de inimigo natural e sua função na natureza. “De nada adianta a presença de insetos benéficos na lavoura, se o agricultor confundi-los com os que podem causar danos à plantação”, alerta a pesquisadora da Embrapa Alessandra de Carvalho Silva, especialista em controle biológico de pragas e uma das idealizadoras do aplicativo.

Comem diferentes insetos-praga

A galeria de imagens do Guia InNat contempla 13 famílias de insetos predadores e mais os parasitoides e as aranhas. São inimigos naturais generalistas, ou seja, não são muito específicos e comem uma grande quantidade de insetos-praga. A ferramenta possibilita, por exemplo, a identificação de um determinado inseto visto com frequência na lavoura. “É também uma forma de o produtor saber se a área dele está bem ecologicamente. Se há mais inimigos naturais é porque o manejo está adequado”, explica Carvalho.
O fato de o aplicativo conter informações sobre o papel dos inimigos naturais como agente de controle ajuda o agricultor no momento de tomar decisões. A joaninha, por exemplo, vem com a informação de que suas larvas e adultos se alimentam, preferencialmente de pulgões, cochonilhas, ácaros, moscas-brancas, larvas e também de ovos de diferentes insetos. Portanto, se o produtor encontrar joaninhas em uma lavoura atacada por pulgões, ele saberá que brevemente a população da praga será reduzida, como explica a pesquisadora da Embrapa. “O InNat pode facilitar o entendimento sobre quem são os vilões e quais os insetos benéficos para as lavouras”, enfatiza.
Se há lagartas na lavoura e o agricultor encontra o inseto conhecido por “tesourinha” na plantação, com o InNat em mãos, ele vai constatar que este é um inimigo natural muito útil. “[Tesourinhas] São predadores de ovos, pulgões, moscas-brancas, lagartas pequenas...”, informa o aplicativo, que traz ainda dez fotos desse agente de controle. Na dúvida, basta fotografar o inseto que está presente na lavoura e comparar com as fotos do aplicativo.
Alessandra Carvalho explica que as tesourinhas costumam ser temidas por algumas pessoas, por isso a importância do esclarecimento. “As pinças que o inseto possui no final do abdome lhe dão uma aparência agressiva; se a pessoa não sabe o quanto ele pode contribuir para a redução de lagartas nas lavouras, uma vez que se alimenta dos ovos das mariposas, ele pode ser morto,” lamenta a cientista.

Aliado no Manejo Integrado de Pragas

Para os produtores que fazem uso do manejo integrado de pragas (MIP), o aplicativo pode ser um facilitador. A prática procura preservar e incrementar os fatores de mortalidade natural por meio do uso integrado de técnicas que visam manter a densidade de insetos abaixo de um nível que possa provocar dano econômico. Um inseto fitófago (que se alimenta de plantas) só é considerado praga se causa dano econômico, antes disso não é necessária nenhuma medida curativa.
Seja por meio da avaliação do controle biológico natural no agroecossistema, pela ação de inimigos naturais nativos ou pelo uso do controle biológico aplicado, com a liberação de inimigos naturais no campo, o reconhecimento desses agentes pelo produtor é de extrema importância para o sucesso do MIP. “Sem o devido reconhecimento desses organismos benéficos, as etapas seguintes do MIP ficam comprometidas”, explica a cientista.
Uma vez que o equilíbrio populacional dos insetos fitófagos na lavoura depende dos agentes naturais de controle, a pesquisadora ressalta que o aplicativo pode auxiliar nessa prática agrícola.  “Os microrganismos entomopatogênicos (que causam doenças nos insetos), bem como os predadores e parasitoides são disponibilizados gratuitamente pela natureza e apenas temos que reconhecê-los e preservá-los para obter sucesso na produção agrícola”, orienta a especialista.
Fonte:Ana Lucia Ferreira (MTb 16913/RJ) 

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Um retrato do Brasil no cadastro ambiental rural
Informação de qualidade é essencial para conhecer, diagnosticar e planificar o desenvolvimento de qualquer segmento da atividade econômica. Nesse sentido, contribuição extraordinária ao setor primário será prestado pelo Cadastro Ambiental Rural (CAR) criado pelo novo Código Florestal Brasileiro, a Lei 12.651, de 25 de maio de 2012.
Todas as propriedades rurais do País devem ser cadastradas. A massa de informações aportadas em cada cadastro fornecem, no conjunto, subsídios valiosos para se compreender o atual estágio da agricultura tal qual uma fotografia em alta definição. A área efetivamente utilizada para as atividades agrícolas e pecuárias, as áreas de proteção ambiental, a intensidade da exploração econômica – enfim, todas as informações relevantes da ação humana nos imóveis rurais estarão disponíveis. Esse registro público eletrônico de âmbito nacional, obrigatório para todos os imóveis rurais, integrará as informações ambientais das propriedades e posses rurais, compondo base de dados para controle, monitoramento, planejamento  econômico-ambiental e combate ao desmatamento.
Importante realçar que as classes produtoras rurais compreenderam a importância e aderiram ao CARmais de 4,2 milhões de imóveis rurais estão inscritos no Sistema Nacional de Cadastro Ambiental Rural, o SICAR, sob a responsabilidade do  Ministério do Meio Ambiente (MMA). Esse enorme banco de dados geocodificados cria a perspectiva da qualificação e quantificação das áreas destinadas à preservação da vegetação nos imóveis rurais com base em mapas delimitados sobre imagens de satélite com 5 metros de resolução espacial.
Isso é muito diferente dos censos do IBGE baseado apenas nas declarações dos produtores. Em cada um dos registros do CAR, além do perímetro do imóvel, o agricultor delimitou cartograficamente a localização dos remanescentes de vegetação nativa, das áreas de preservação permanente, das áreas de uso restrito, das áreas consolidadas e, caso existente, também da localização da reserva legal.
O CAR expressa a dimensão da agricultura, locomotiva do desenvolvimento econômico do Brasil.  Ela emprega mais de 32 milhões de trabalhadores (33% dos empregados no país) e mantém crescimento sustentado com participação no Produto Interno Bruto total de 23,6%. O Brasil tem participação relevante no mercado internacional, liderando produção e exportação de uma dezena de produtos agropecuários.
Na última semana do ano, o presidente Michel Temer assinou decreto que prorroga para 31 de maio de 2018 o prazo para que produtores façam sua inscrição no Cadastro. A medida foi necessária porque pequenos produtores vêm encontrando dificuldades de acessar o sistema e informar seus dados ambientais. Uma coisa é certa: o planejamento da agricultura brasileira dará um salto de qualidade.

*José Zeferino Pedrozo – Presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de SC (Faesc) e do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (SENAR/SC)
Os agricultores que alimentarão o mundo
Cresimento econômico e dinâmica populacional serão importantes motores de transformação da sociedade nos próximas décadas. A Organização das Nações Unidas (ONU) estima que a população mundial deverá atigir cerca de 9,8 bilhões até 2050, cresicmento que será acompanhado por evolução da renda e da demanda por alimentos. Em função das mudanças demográficas, teremos uma população mais urbana, mais idosa, mais e rica e mais exigente, demandando mais frutas, legumes, proteína animal, além de aliamentos mais elaborados e sofisticados. Essa realidade pressionará os setores agroalimentar e agroindustrial e poderá elevar os riscos relacionados à poluição, esgotamento do solo, da água e da biodiversidade, além de intensificar estresses devido às mudanças climáticas globais.
Outra preocupação recente se refere ao tipo de unidades produtivas e de agricultores que serão necessários para garantia da segurança alimentar e nutricional das populações no futuro. Afinal, sem agricultores e sem fazendas não há sistema alimentar. Assim, uma ação central em qualquer estratégia de desenvolvimento é a busca de condições que viabilizem econômica, social e ambientalmente a produção de alimentos, proporcionando renda e condições de vida dignas aos agricultores, aos trabalhadores do campo e suas famílias, além de proteção aos recursos naturais. Essa discussão ocorre em meio a um grande debate, energizado por um certo viés ideológico, que antagoniza pequenos produtores e a agricultura de maior escala na discussão dos modelos  de produção de alimentos mais adequados para o futuro.
Para melhor contextualizar essa discussão, é preciso examinar os números levantados pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), em 2016, sobre os agricultores no mundo. O estudo cobriu 167 países, que representam 96% da população mundial, 97% da população ativa na agricultura e 90% das terras agrícolas, mostrando existirem cerca de 570 milhões de propriedades rurais em todo o globo. A Ásia concentra 74% delas, sendo que a China responde por 35% a e Índia, por 24%. Nove por cento são encontrados na África Subsaariana, e 7% na europa e Ásia Central. Fazendas na América Latina  e Caribe representam 4% e apenas 3% estão localizadas no Orinete Médio e no norte da África. Treze por cento das fazendas estão em países de baixa renda e 4% nos países mais ricos, ficando os países em desenvolvimento de renda mediana com 83% de todas as propriedades rurais do globo.
A FAO estudou também uma amostra de 111 países e territórios com um total de cerca de 460 milhões  de propriedades rurais e concluiu que 72% delas têm menos de um hectare, 12% têm entre 1 e 2 hectares, 10%, entre 2 e 5 hectares. Apenas 6% das fazendas do mundo são maiores que 5 hactares. Com o crescimento populacional, a tendência é de fragmentação ainda maior das unidades produtvas nos países mais pobres. Durante a última década, na África, o tamanho médio das propriedades foi reduzido de 2,4 parta 2,1 hectares, e de 2,2 para 1,1 hectares na Índia, entre 1970 e 2011. Reduções no tamanho das propriedades impedem os agricultores de viver de maneira digna, ampliando a migração para as cidades. Some-se a isso o fato de quecresce em todo o mundo o número de agricultores ativos com mais de 60 anos de idade, grande parte sem perspectivas de sucessão, já que os filhos buscam outras profissões.
Estidos da FAO também revelam que o progresso e o crescimento da renda provocam a redução no número de agricultores e o aumento no tamanho das propriedades. As maiores, com uma superfície superior a 5 hectares, cobrem 27% da terras em países de baixa renda , 43% nos países de renda média baixa, 96% nos países de renda média alta e 97% em países de alta renda. Países desenvolvidos, grandes produtores e exportadores de alimentos, como Estados Unidos e Holanda, por exemplo, têm menos de 1% da força de trabalho no campo. Ainda assim, cerca de 14% da economia holandesa e 5.5% da gigantesca economia americana resultam da produção agrícola.
Portanto, a dura realidade que se apresenta no horizonte de 2050 não poderá ser enfrentada a partir de um estéril embate entre pequenos e grande produtores. Ambos são essenciais, uma vez que dobrar a produção de alimentos em prazo tão curto exigirá a modelagem de uma agricultura cada vez mais divrsificada e especializada. O mundo precisará investir na intensificação do uso das terras já destinadas à produção, além de expansão prudente de área, com rigorosos balizamentos na sustentabilidade. A agricultura comercial de maior escala seguirá se ampliando com o avanço do progresso econômico, especialmente para prover produtos de grande demanda como soja, milho, carnes, açúcar, fibras, dentre outros.
Os pequenos produtores continuarão sendo uma maioria muito importante para o futuro sa segurança alimentar, mas sua viabilidade dependerá de apoio e políticas públicas relacionadas à propriedade da terra e à sucessão, ao acesso a conhecimento, tecnologia e financiamento, além de mercados amigáveis à lógica da inclusão produtiva. A produção se tornará mais diversa e especializada para ganhar a preferência de consumidores cadavez mais exigentes. Hortaliças, frutas, cafés e produtos especiais ligados à moderna gastronomia já sustentam modelos mais sofisticados e rentáveis de pequena produção em muitos países, e certamente se expandirão no futuro.
O Brasil, neste momento, realiza um novo Censo Agropecuário para levantamento de informações sobre o seu setor aropecuário. Esse retrato atual do mundo rural brasileiro, a ser apontado em 2018, nos permitirá traçar um perfil detalhado da produção e dos nossos agricultores, base para projetarmos o futuro que queremos para as múltiplas agriculturas que povoam nosso imenso e diverso país.

*Maurício Antônio Lopes é Presidente da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa)

Ciência desenvolve melhorias na fabricação de produtos de babaçu Foto: Marcelo Cavallari Adoção de máquina para desflocular o co...