quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Com ajuda da ciência, primeiras vinícolas gaúchas de pequeno porte são legalizadas


Foto: Viviane Zanella
Viviane Zanella -
A partir da próxima safra, um grupo-piloto de 11 pequenos vinicultores da Serra Gaúcha sairá da ilegalidade e poderá vender e divulgar seus produtos. A conquista é fruto de um trabalho realizado desde 2010 por oito instituições, com a articulação da Embrapa Uva e Vinho (RS), Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin) e Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Rio Grande do Sul (Emater/RS-Ascar). Além de viabilizar uma lei feita sob medida para produtores da região, a Lei do Vinho Colonial, o grupo estruturou um protocolo de adequação que foi decisivo para legalizar a produção. Boas práticas, tais como uso de piso impermeável, paredes laváveis, controle de pragas (portas que impeçam a entrada de roedores e insetos, por exemplo), rastreabilidade e procedimentos para higienização, foram detalhadas na Instrução Normativa 05/2000 com a finalidade de auxiliar vinicultores a adaptar sua produção. Todo o conteúdo foi elaborado e proposto por cientistas e técnicos da área.

Conhecimento tradicional preservado

Os pequenos produtores são, na maioria, descendentes de imigrantes italianos que trouxeram na bagagem a fórmula para produzir o próprio vinho, considerado um item básico na sua alimentação. Com o aumento do enoturismo, a procura dos turistas para conhecer, degustar e levar para casa um pouco do vinho denominado colonial ou artesanal podia deixar o pequeno produtor à margem da lei, pois a necessidade de abertura de empresa para formalizar a atividade vinícola representava uma barreira.
Thompsson Didoné é técnico do escritório municipal da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Rio Grande do Sul (Emater/RS-Ascar), de Bento Gonçalves, e relata que o “saber elaborar vinho” foi uma herança repassada de geração para geração, em especial na Serra Gaúcha, que detém hoje 85% da produção nacional de vinho e derivados, segundo dados do Ibravin. Na região, muitos pequenos produtores tornaram-se grandes empresários do mundo do vinho, mas a grande maioria continua sendo de pequeno porte.  “Resgatar o vinho colonial é uma espécie de resgate cultural dos nossos imigrantes. É também uma forma de valorização e legalização para que esse saber-fazer tradicional se mantenha forte. É a concretização de um sonho”, pontua ele, que há 15 anos atua na extensão rural e foi um dos grandes incentivadores da ação conjunta.

Produtores capacitados

Didoné conta que o processo para legalizar o grupo-piloto dos 11 pequenos produtores demandou esforços para viabilizar essa regularização em três eixos: tributário, sanitário e ambiental. “A legislação é direcionada aos pequenos produtores de agricultura familiar, que elaboram até 20 mil litros de vinho por ano e possuem 100% de uvas próprias. Eles precisam seguir normas específicas para garantir a qualidade do produto e adequadas à sua realidade”, conta Alexandre Hoffmann, articulador do grupo de trabalho e pesquisador da Embrapa Uva e Vinho. Mesmo tendo a lei aprovada, o grupo precisou continuar o trabalho e orientar e capacitar pequenos produtores, desde o repasse de tecnologias para a elaboração da bebida até o apoio para adequação das pequenas cantinas atendendo as exigências legais.
Segundo Hoffmann, o grupo colaborou tecnicamente com o Congresso Nacional para a criação da Lei do Vinho Artesanal/Colonial (nº 12.959/2014), que dá visibilidade e segurança ao produto elaborado por agricultor ou empreendimento agrícola familiar. A lei estabelece as orientações que o produtor deve adotar e se baseia, essencialmente, na Lei do Vinho (Lei nº 7.678/1988) e em um conjunto de instruções normativas para a elaboração e comercialização do vinho. “Em outras palavras, a legislação prevê que o produtor atenda aos padrões de identidade e qualidade do vinho, com responsabilidade técnica e com volume limitado de produção, especificamente para os produtores que se enquadram no Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf)”, destaca. “Com a adequação, os produtores terão segurança jurídica e os consumidores, maior confiança na qualidade do vinho que adquirem”, resume o especialista da Embrapa.

Enoturismo fortalece resgate das tradições

Conforme prevê o Programa, no eixo tributário, foram feitos ajustes para que produtores que elaboram até 20 mil litros de vinho por ano, com uvas provenientes exclusivamente na sua propriedade, possam utilizar o bloco do produtor rural para a comercialização, que deverá ser feita na propriedade, em feiras de produtores ou em cooperativas e associações às quais esteja ligado. Na questão ambiental, a própria equipe técnica da Emater desenvolveu uma planta modelo para tratamento de efluentes. A adoção desta planta já é pré-aprovada para licenciamento pela Secretaria do Meio Ambiente do RS.
Já na questão sanitária, independentemente de ser elaborado por pequenos ou grandes estabelecimentos, por ser um produto para o consumo humano, devem ser seguidas as normas de boas práticas para garantir um alimento seguro. Assim, o grupo de trabalho com coordenação do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin) desenvolveu uma lista de requisitos com base na legislação vigente, porém mais detalhada e com explicações específicas para a realidade do vinho colonial. Também foi estruturado um modelo de manual de boas práticas a partir do PAS – Uva para Processamento, porém de forma simplificada.  “Esse trabalho foi desenvolvido e implementado com alguns dos produtores do grupo-piloto para chegar a um formato com boa aplicabilidade.  A lista de requisitos agora estará à disposição em cartilha orientativa, comenta a consultora do Ibravin Janine Basso Lisbôa. Produtores de outros estados poderão usar o material como referência, mas devem se adequar às políticas da agroindústria familiar de cada estado.
Outras normas foram mantidas, como a obrigatoriedade do rótulo, no qual deverá constar a variedade da uva, o nome fantasia do estabelecimento, a data de elaboração e o número da Declaração de Aptidão ao Programa Nacional de Agricultura Familiar (DAP), que foi um ajuste necessário para eliminar a necessidade de formalização de uma empresa.
Visando tornar o processo mais eficiente, as equipes da Superintendência do Ministério da Agricultura do Rio Grande do Sul e da Secretaria do Estado da Agricultura fizeram visitas extraordinárias que serviram para ajustar as questões estruturais dos produtores que manifestaram interesse em se registrar. “Acompanhamos a visita aos 11 produtores que integram o projeto-piloto e atentamos aos itens necessários para a obtenção do registro”, complementa Didoné. A partir disso, a equipe de extensionistas da Emater/RS incluiu no seu calendário uma série de visitas de rotina e acompanhamento dos ajustes nas vinícolas coloniais participantes para orientar os produtores. “O registro é a realização de um sonho, que com certeza vai tirar da informalidade muitos pequenos produtores que poderão legalizar seus empreendimentos”, avalia Didoné.
O grupo de instituições foi mobilizado pela Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Rio Grande do Sul (Emater/RS-Ascar) e, além da Embrapa, reuniu representantes do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS), do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), da Prefeitura de Bento Gonçalves (RS) e das secretarias estaduais de Desenvolvimento Rural, Pesca e Cooperativismo e de Agricultura, Pecuária e Irrigação do Rio Grande do Sul.

Primeiras vinícolas legalizadas

Auri Flâmia, da Linha de São Valentim, no interior de Bento Gonçalves, foi um dos primeiros produtores participantes do projeto que conseguiu a legalização da sua vinícola, a Piccola Cantina. Neto de imigrantes italianos, em conjunto com a esposa Diva, cultiva 16 hectares de uvas comuns, como Niágara e ‘BRS Lorena’, e elabora vinhos para consumo próprio e da família e também vende parte da fruta para consumo. Já tinham praticamente toda a estrutura pronta, mas, mesmo assim, precisaram investir cerca de R$ 50 mil para adequar a estrutura conforme determina a norma. “Não me preocupo quando vou ter o dinheiro de volta, mas gosto de produzir vinho e agora que vai ser legalizado fica mais tranquilo. Dá orgulho fazer um bom produto que o pessoal gosta”, comenta Flâmia.
Com a participação da filha mais velha, que é a responsável técnica do estabelecimento,  planejam já na próxima safra fazer os 20 mil litros de vinhos autorizados e comercializar na vinícola ou em feiras de produtores. “Vamos vender em garrafões de cinco litros ou em embalagens pet (plástico) de dois litros, que todos preferem por ser mais práticas e não precisar devolver”, comenta. Sonham que no futuro a propriedade passe a integrar uma rota turística do município, pois os 3,5 km de estrada de chão que separam a BR 470 da sua propriedade proporcionam lindas paisagens, como a vista do Vale da Ferradura.
O produtor Aldo Lazzari, de Garibaldi, não fazia parte do grupo-piloto, mas, em função da urgência devido à fiscalização, recebeu um apoio técnico do grupo gestor e obteve também o registro.

Vinho e turismo

Os irmãos Batistelo, Mateus, Maurício e Marcelo, proprietários dos Vinhos Don Bernardo, localizados no Vale dos Vinhedos, em Bento Gonçalves, aderiram ao projeto de legalização desde o princípio, ainda em 2010, junto com outros 82 produtores do município. Segundo contam, a caminhada foi longa, mas cheia de aprendizados. “A Emater nos incentivou muito e mostrou que íamos ter uma renda a mais ao fazer o vinho e comercializar. E, o melhor, fazer o que a gente gosta”, comenta Mateus.
Eles já tinham o pavilhão, mas foram necessários muitos ajustes que somaram cerca de R$ 50 mil. Com uma produção anual de cinco mil litros de vinho, eles esperam recuperar o investimento em dois anos. “Na frente da antiga casa do nosso bisavô, que fica na frente da vinícola, vamos construir um varejo e também um espaço para os turistas poderem se sentar, beber e aproveitar a vista”, conta Mateus, que é o responsável pela comercialização dos vinhos.
Os irmãos produzem vinhos para a família desde 1995 e contam que participar deste projeto do resgate e legalização já qualificou a produção. Desde 2013, fizeram a conversão dos parreirais para o sistema de espaldeira, que garante uvas de qualidade para a elaboração do vinho. “Toda a parte técnica, do vinhedo à enologia, foi aprendido com a Embrapa e com a Emater. Eles que nos incentivaram a mudar para espaldeira que ia melhorar o vinho”, comenta Marcelo, responsável pelo gerenciamento dos parreirais. Atualmente, eles cultivam as variedades Tempranillo, Marselan, Malbec, Shiraz e Merlot para a elaboração dos seus vinhos.
Mesmo estando fora de uma rota turística conhecida, Vitório e Ivone Somensi, da Cantina Porão do Vale, elaboram vinho há sete anos e, desde que integram o projeto, já conseguem perceber a evolução na sua produção, nos últimos cinco anos. Eles investiram 70 mil reais nos ajustes necessários e estão confiantes que irão recuperar o investimento em até três anos com a venda dos produtos. “Uma agência de turismo nos procurou para organizar visitas. Estão só esperando legalizarmos a estrutura e finalizar o nosso varejo para começarem a trazer os turistas”, contam animados. Além de vinhos de uvas viníferas, como a Merlot, eles também produzem o tradicional vinho de Isabel e Niágara. As bebidas serão comercializadas em garrafas e garrafões de cinco litros.

Próximos passos

Segundo dados da área de Transferência de Tecnologia da Embrapa Uva e Vinho, cerca de três mil pessoas já foram treinadas, muitos dos quais hoje são grandes produtores. Além de coordenar esta ação de legalização, na percepção do pesquisador Alexandre Hoffmann, ainda há muito trabalho para as próximas etapas da pesquisa, como desenvolver e repassar tecnologias para qualificar o vinho colonial.
O Rio Grande do Sul concentra a maior parte dos produtores de vinho colonial, mas, segundo projeções, estima-se que cerca de quatro mil famílias produzam e vendam, sem registar, seu vinho no Brasil. “Conhecemos empreendedores também nos estados de Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo, que, com certeza, também se beneficiarão com os avanços da lei e das tecnologias”, avalia Hoffmann. A expectativa do grupo que coordenou o projeto-piloto é que essa experiência possa guiar e facilitar a legalização desses produtores, como um importante fator de renda, sustentabilidade e manutenção da tradição da elaboração de vinho.
Fonte:Viviane Zanella (MTb 14.400/RS) 

Aplicativo auxilia na identificação de inimigos naturais de pragas agrícolas



Foto: Divulgação
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Uma das maiores dificuldades para o produtor é identificar os inimigos naturais das pragas que atacam sua lavoura, especialmente para quem pretende utilizá-los como método de controle, pois esses aliados naturais podem ser confundidos com as próprias pragas. Para facilitar a identificação, especialistas da Embrapa Agrobiologia (RJ) desenvolveram um aplicativo com o qual é possível acessar imagens dos agentes naturais de controle mais comuns. O Guia InNaté gratuito e está disponível para download na loja de aplicativos Google Play.
Com um smartphone em mãos, o produtor pode comparar um inseto coletado em campo com a galeria de imagens. Além disso, pode ir para o campo, fotografar um inseto presente na sua lavoura e comparar no mesmo momento a foto tirada com a câmera do celular com as imagens da galeria do Guia InNat. Além de fotos, o aplicativo contém informações sobre cada grupo de inimigo natural e sua função na natureza. “De nada adianta a presença de insetos benéficos na lavoura, se o agricultor confundi-los com os que podem causar danos à plantação”, alerta a pesquisadora da Embrapa Alessandra de Carvalho Silva, especialista em controle biológico de pragas e uma das idealizadoras do aplicativo.

Comem diferentes insetos-praga

A galeria de imagens do Guia InNat contempla 13 famílias de insetos predadores e mais os parasitoides e as aranhas. São inimigos naturais generalistas, ou seja, não são muito específicos e comem uma grande quantidade de insetos-praga. A ferramenta possibilita, por exemplo, a identificação de um determinado inseto visto com frequência na lavoura. “É também uma forma de o produtor saber se a área dele está bem ecologicamente. Se há mais inimigos naturais é porque o manejo está adequado”, explica Carvalho.
O fato de o aplicativo conter informações sobre o papel dos inimigos naturais como agente de controle ajuda o agricultor no momento de tomar decisões. A joaninha, por exemplo, vem com a informação de que suas larvas e adultos se alimentam, preferencialmente de pulgões, cochonilhas, ácaros, moscas-brancas, larvas e também de ovos de diferentes insetos. Portanto, se o produtor encontrar joaninhas em uma lavoura atacada por pulgões, ele saberá que brevemente a população da praga será reduzida, como explica a pesquisadora da Embrapa. “O InNat pode facilitar o entendimento sobre quem são os vilões e quais os insetos benéficos para as lavouras”, enfatiza.
Se há lagartas na lavoura e o agricultor encontra o inseto conhecido por “tesourinha” na plantação, com o InNat em mãos, ele vai constatar que este é um inimigo natural muito útil. “[Tesourinhas] São predadores de ovos, pulgões, moscas-brancas, lagartas pequenas...”, informa o aplicativo, que traz ainda dez fotos desse agente de controle. Na dúvida, basta fotografar o inseto que está presente na lavoura e comparar com as fotos do aplicativo.
Alessandra Carvalho explica que as tesourinhas costumam ser temidas por algumas pessoas, por isso a importância do esclarecimento. “As pinças que o inseto possui no final do abdome lhe dão uma aparência agressiva; se a pessoa não sabe o quanto ele pode contribuir para a redução de lagartas nas lavouras, uma vez que se alimenta dos ovos das mariposas, ele pode ser morto,” lamenta a cientista.

Aliado no Manejo Integrado de Pragas

Para os produtores que fazem uso do manejo integrado de pragas (MIP), o aplicativo pode ser um facilitador. A prática procura preservar e incrementar os fatores de mortalidade natural por meio do uso integrado de técnicas que visam manter a densidade de insetos abaixo de um nível que possa provocar dano econômico. Um inseto fitófago (que se alimenta de plantas) só é considerado praga se causa dano econômico, antes disso não é necessária nenhuma medida curativa.
Seja por meio da avaliação do controle biológico natural no agroecossistema, pela ação de inimigos naturais nativos ou pelo uso do controle biológico aplicado, com a liberação de inimigos naturais no campo, o reconhecimento desses agentes pelo produtor é de extrema importância para o sucesso do MIP. “Sem o devido reconhecimento desses organismos benéficos, as etapas seguintes do MIP ficam comprometidas”, explica a cientista.
Uma vez que o equilíbrio populacional dos insetos fitófagos na lavoura depende dos agentes naturais de controle, a pesquisadora ressalta que o aplicativo pode auxiliar nessa prática agrícola.  “Os microrganismos entomopatogênicos (que causam doenças nos insetos), bem como os predadores e parasitoides são disponibilizados gratuitamente pela natureza e apenas temos que reconhecê-los e preservá-los para obter sucesso na produção agrícola”, orienta a especialista.
Fonte:Ana Lucia Ferreira (MTb 16913/RJ) 

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Um retrato do Brasil no cadastro ambiental rural
Informação de qualidade é essencial para conhecer, diagnosticar e planificar o desenvolvimento de qualquer segmento da atividade econômica. Nesse sentido, contribuição extraordinária ao setor primário será prestado pelo Cadastro Ambiental Rural (CAR) criado pelo novo Código Florestal Brasileiro, a Lei 12.651, de 25 de maio de 2012.
Todas as propriedades rurais do País devem ser cadastradas. A massa de informações aportadas em cada cadastro fornecem, no conjunto, subsídios valiosos para se compreender o atual estágio da agricultura tal qual uma fotografia em alta definição. A área efetivamente utilizada para as atividades agrícolas e pecuárias, as áreas de proteção ambiental, a intensidade da exploração econômica – enfim, todas as informações relevantes da ação humana nos imóveis rurais estarão disponíveis. Esse registro público eletrônico de âmbito nacional, obrigatório para todos os imóveis rurais, integrará as informações ambientais das propriedades e posses rurais, compondo base de dados para controle, monitoramento, planejamento  econômico-ambiental e combate ao desmatamento.
Importante realçar que as classes produtoras rurais compreenderam a importância e aderiram ao CARmais de 4,2 milhões de imóveis rurais estão inscritos no Sistema Nacional de Cadastro Ambiental Rural, o SICAR, sob a responsabilidade do  Ministério do Meio Ambiente (MMA). Esse enorme banco de dados geocodificados cria a perspectiva da qualificação e quantificação das áreas destinadas à preservação da vegetação nos imóveis rurais com base em mapas delimitados sobre imagens de satélite com 5 metros de resolução espacial.
Isso é muito diferente dos censos do IBGE baseado apenas nas declarações dos produtores. Em cada um dos registros do CAR, além do perímetro do imóvel, o agricultor delimitou cartograficamente a localização dos remanescentes de vegetação nativa, das áreas de preservação permanente, das áreas de uso restrito, das áreas consolidadas e, caso existente, também da localização da reserva legal.
O CAR expressa a dimensão da agricultura, locomotiva do desenvolvimento econômico do Brasil.  Ela emprega mais de 32 milhões de trabalhadores (33% dos empregados no país) e mantém crescimento sustentado com participação no Produto Interno Bruto total de 23,6%. O Brasil tem participação relevante no mercado internacional, liderando produção e exportação de uma dezena de produtos agropecuários.
Na última semana do ano, o presidente Michel Temer assinou decreto que prorroga para 31 de maio de 2018 o prazo para que produtores façam sua inscrição no Cadastro. A medida foi necessária porque pequenos produtores vêm encontrando dificuldades de acessar o sistema e informar seus dados ambientais. Uma coisa é certa: o planejamento da agricultura brasileira dará um salto de qualidade.

*José Zeferino Pedrozo – Presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de SC (Faesc) e do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (SENAR/SC)
Os agricultores que alimentarão o mundo
Cresimento econômico e dinâmica populacional serão importantes motores de transformação da sociedade nos próximas décadas. A Organização das Nações Unidas (ONU) estima que a população mundial deverá atigir cerca de 9,8 bilhões até 2050, cresicmento que será acompanhado por evolução da renda e da demanda por alimentos. Em função das mudanças demográficas, teremos uma população mais urbana, mais idosa, mais e rica e mais exigente, demandando mais frutas, legumes, proteína animal, além de aliamentos mais elaborados e sofisticados. Essa realidade pressionará os setores agroalimentar e agroindustrial e poderá elevar os riscos relacionados à poluição, esgotamento do solo, da água e da biodiversidade, além de intensificar estresses devido às mudanças climáticas globais.
Outra preocupação recente se refere ao tipo de unidades produtivas e de agricultores que serão necessários para garantia da segurança alimentar e nutricional das populações no futuro. Afinal, sem agricultores e sem fazendas não há sistema alimentar. Assim, uma ação central em qualquer estratégia de desenvolvimento é a busca de condições que viabilizem econômica, social e ambientalmente a produção de alimentos, proporcionando renda e condições de vida dignas aos agricultores, aos trabalhadores do campo e suas famílias, além de proteção aos recursos naturais. Essa discussão ocorre em meio a um grande debate, energizado por um certo viés ideológico, que antagoniza pequenos produtores e a agricultura de maior escala na discussão dos modelos  de produção de alimentos mais adequados para o futuro.
Para melhor contextualizar essa discussão, é preciso examinar os números levantados pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), em 2016, sobre os agricultores no mundo. O estudo cobriu 167 países, que representam 96% da população mundial, 97% da população ativa na agricultura e 90% das terras agrícolas, mostrando existirem cerca de 570 milhões de propriedades rurais em todo o globo. A Ásia concentra 74% delas, sendo que a China responde por 35% a e Índia, por 24%. Nove por cento são encontrados na África Subsaariana, e 7% na europa e Ásia Central. Fazendas na América Latina  e Caribe representam 4% e apenas 3% estão localizadas no Orinete Médio e no norte da África. Treze por cento das fazendas estão em países de baixa renda e 4% nos países mais ricos, ficando os países em desenvolvimento de renda mediana com 83% de todas as propriedades rurais do globo.
A FAO estudou também uma amostra de 111 países e territórios com um total de cerca de 460 milhões  de propriedades rurais e concluiu que 72% delas têm menos de um hectare, 12% têm entre 1 e 2 hectares, 10%, entre 2 e 5 hectares. Apenas 6% das fazendas do mundo são maiores que 5 hactares. Com o crescimento populacional, a tendência é de fragmentação ainda maior das unidades produtvas nos países mais pobres. Durante a última década, na África, o tamanho médio das propriedades foi reduzido de 2,4 parta 2,1 hectares, e de 2,2 para 1,1 hectares na Índia, entre 1970 e 2011. Reduções no tamanho das propriedades impedem os agricultores de viver de maneira digna, ampliando a migração para as cidades. Some-se a isso o fato de quecresce em todo o mundo o número de agricultores ativos com mais de 60 anos de idade, grande parte sem perspectivas de sucessão, já que os filhos buscam outras profissões.
Estidos da FAO também revelam que o progresso e o crescimento da renda provocam a redução no número de agricultores e o aumento no tamanho das propriedades. As maiores, com uma superfície superior a 5 hectares, cobrem 27% da terras em países de baixa renda , 43% nos países de renda média baixa, 96% nos países de renda média alta e 97% em países de alta renda. Países desenvolvidos, grandes produtores e exportadores de alimentos, como Estados Unidos e Holanda, por exemplo, têm menos de 1% da força de trabalho no campo. Ainda assim, cerca de 14% da economia holandesa e 5.5% da gigantesca economia americana resultam da produção agrícola.
Portanto, a dura realidade que se apresenta no horizonte de 2050 não poderá ser enfrentada a partir de um estéril embate entre pequenos e grande produtores. Ambos são essenciais, uma vez que dobrar a produção de alimentos em prazo tão curto exigirá a modelagem de uma agricultura cada vez mais divrsificada e especializada. O mundo precisará investir na intensificação do uso das terras já destinadas à produção, além de expansão prudente de área, com rigorosos balizamentos na sustentabilidade. A agricultura comercial de maior escala seguirá se ampliando com o avanço do progresso econômico, especialmente para prover produtos de grande demanda como soja, milho, carnes, açúcar, fibras, dentre outros.
Os pequenos produtores continuarão sendo uma maioria muito importante para o futuro sa segurança alimentar, mas sua viabilidade dependerá de apoio e políticas públicas relacionadas à propriedade da terra e à sucessão, ao acesso a conhecimento, tecnologia e financiamento, além de mercados amigáveis à lógica da inclusão produtiva. A produção se tornará mais diversa e especializada para ganhar a preferência de consumidores cadavez mais exigentes. Hortaliças, frutas, cafés e produtos especiais ligados à moderna gastronomia já sustentam modelos mais sofisticados e rentáveis de pequena produção em muitos países, e certamente se expandirão no futuro.
O Brasil, neste momento, realiza um novo Censo Agropecuário para levantamento de informações sobre o seu setor aropecuário. Esse retrato atual do mundo rural brasileiro, a ser apontado em 2018, nos permitirá traçar um perfil detalhado da produção e dos nossos agricultores, base para projetarmos o futuro que queremos para as múltiplas agriculturas que povoam nosso imenso e diverso país.

*Maurício Antônio Lopes é Presidente da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa)

Ciência desenvolve melhorias na fabricação de produtos de babaçu Foto: Marcelo Cavallari Adoção de máquina para desflocular o co...