terça-feira, 6 de março de 2012

OVERDOSE PARTE II

Efeitos agudos das drogas de abuso - Parte II 
Acute effects of drugs of abuse 

Thompson, JP 

Clinical Medicine (The Journal of the Royal College of Physicians), vol 3 (2), 123-126, 2003 

Este artigo, elaborado por John Thompson, professor titular da disciplina de Farmacologia Clínica da Universidade Wales College of Medicine no Reino Unido discute os principais efeitos agudos das drogas de abuso e o manejo clínico na intoxicação aguda e overdose destas substâncias. Na semana passada, falamos da heroína e cocaína e nesta semana, o ecstasy, o LSD, o GHB e o cannabis serão discutidos em detalhes. 

 
ECSTASY (3,4-metilenedioximetanfetamina) 

O Ecstasy é uma anfetamina semi-sintética, particularmente popular em ambientes noturnos que tocam músicas eletrônicas. O ecstasy é habitualmente consumido em comprimidos ou cápsulas, contendo cerca de 30 a 150 mg de MDMA, porém, análises mais detalhadas têm mostrado que muitos outros produtos estão geralmente presentes. 

Intoxicação 

Os efeitos da intoxicação aguda pelo ecstasy são decorrentes dos efeitos adrenérgicos e serotoninérgicos (5HT) centrais e periféricos. O ecstasy produz um quadro de euforia e bem-estar, sensação de intimidade e proximidade com os outros. Outros efeitos são diminuição do apetite, taquicardia, tensão maxilar, bruxismo e sudorese. A duração dos efeitos é 4 a 6 horas e o desenvolvimento de tolerância rápida impede o uso compulsivo e aditivo. 
Crises hipertensivas, precordialgias, arritmias cardíacas, hepatites tóxicas, hipertermia, convulsões, rabdomiólise e morte já foram relatadas. Mortes súbitas podem ocorrer em decorrência de arritmias cardíacas supraventriculares ou ventriculares, e mortes tardias podem ocorrer em decorrência de hipertermia, síndrome neurolética malígna ou falência hepática. Casos de hemorragia cerebral, infarto e falência hepática já foram relatados. A hiponatremia ocorre devido a uma secreção inapropriada do hormônio anti diurético somada a uma ingestão insuficiente de líquidos. 
Sintomas ansiosos e psicóticos agudos e crônicos (em indivíduos predispostos) podem aparecer. Relatos de casos também demonstraram alterações importantes no humor e cognição de usuários crônicos. 

Tratamento 

O tratamento para a intoxicação pelo ecstasy é sintomático e suportivo. Um ECG deve ser obtido, o médico deve solicitar um hemograma, provas de função renal e hepática, uréia e creatinina e em casos graves deve-se descartar a presença de coagulação intravascular disseminada (CIVD). Para intoxicações moderadas, a pressão arterial e a temperatura devem ser monitoradas por pelo menos 12 horas e agitações e convulsões devem ser controladas com benzodiazepínicos. 
A hipertensão pode ser tratada com nitratos ou antagonistas de canais de cálcio e a hipotensão com fluidos intravenosos. 
Em casos graves, a dopamina pode ser necessária, uma vez que os fluidos já foram repostos. Se a temperatura exceder 39º, o organismo deve ser resfriado com água morna e o dantrolene pode ser necessário para diminuir a produção de calor conseqüente à hiperatividade muscular. Se estas manobras forem insuficientes para controlar a hiperpirexia (elevação acentuada da temperatura corpórea), a ventilação mecânica com agentes que paralisam a musculatura pode ser necessária. O ciproheptadine que é um antagonista do 5HT também pode ser utilizado. 

Tabela 3. Efeitos agudos da intoxicação pelo ecstasy
DOSES MODERADASDOSES ALTAS

  • Agitação

  • Ansiedade

  • Insônia

  • Boca seca

  • Dilatação pupilar

  • Hipertensão


  • Delirium

  • Nistagmo

  • Tremor

  • Coma

  • Hiperreflexia

  • Convulsões

  • Hiperpirexia

  • Rabdomiólise

  • Síndrome da fadiga respiratória do adulto

  • Hipertensão seguida de hipotensão


  •  
    LSD (ácido lisérgico dietilamida) 

    O LSD é usualmente ingerido através de papéis, comprimidos ou cápsulas. É um potente agonista de receptores 5HT1 e 5HT2. Os efeitos agudos incluem confusão, agitação, alucinações visuais, dilatação pupilar e ocasionalmente aumento da temperatura. O LSD possui baixa toxicidade, porém a overdose pode levar à acidose metabólica, coma e dificuldade respiratória. Ansiedade, despersonalização, paranóia e hiperacusia também podem ocorrer. Ilusões são comuns porém alucinações francas são raras. Usualmente, os pacientes melhoram em poucas horas, embora alguns casos levem até dois dias para obter melhora. 

    A síndrome neuroléptica malígna pode ocorrer. Reações crônicas incluem flashbacks, depressão severa, reações psicóticas prolongadas e exacerbações de doenças mentais pré-existentes. A tolerância ocorre rapidamente. 

    Tratamento na intoxicação 

    Geralmente o tratamento é sintomático e suportivo. Pacientes devem ser colocados em ambientes calmos com o menor número de estímulos possível. Os benzodiazepínicos são considerados o tratamento de escolha para sedação. Fenotiazinas devem ser evitadas em função de casos de colapso cardiovascular anteriormente relatados. 

     
    GHB (gamahidroxibutirato) 

    O GHB foi originalmente desenvolvido como um agente anestésico, mas que deixou de ser usado por desencadear irritabilidade intensa após a cessação de seus efeitos. Atualmente é utilizado como uma droga psicodélica, administrada em sua forma líquida. 
    Embora os efeitos da intoxicação sejam dose dependentes, há uma variabilidade individual para tais efeitos. Seus efeitos clínicos (listados na tabela 4) são potencializados pelo álcool, benzodiazepínicos e outros depressores do sistema nervoso central. 
    Tipicamente seus efeitos iniciam após uma hora da ingestão da droga ou após poucos minutos da droga injetada. Pacientes inconscientes geralmente retomam o nível de consciência após 2 a 3 horas. Usuários crônicos podem desenvolver sintomas de abstinência como: tremores, confusão, agitação, insônia, náusea e vômitos. 


    Tabela 4. Efeitos da intoxicação pelo GHB
    LEVEMODERADO/GRAVE

  • Euforia

  • Náusea

  • Sonolência

  • Cefaléia

  • Ataxia

  • Confusão

  • Agitação

  • Hiponatremia


  • Bradicardia

  • Hipotensão

  • Depressão respiratória


  • Tratamento da intoxicação 

    Pacientes assintomáticos devem ser observados por pelo menos 2 horas. A naloxona pode ser utilizada para reverter os efeitos do GHB e pode ser considerada em casos de coma e depressão respiratória. Os benzodiazepínicos podem ser utilizados para sintomas de abstinência ou crises convulsivas. A bradicardia severa pode responder à atropina. 

     
    CANNABIS 

    O cannabis é uma droga muito utilizada no mundo e que produz um estado de excitação seguida de relaxamento. É usualmente fumada, porém também pode ser ingerida oralmente. Receptores canabinóides específicos foram identificados recentemente. 

    Mortes decorrentes dos efeitos agudos do cannabis são raras, muito embora, acidentes possam ocorrer em função do prejuízo psicomotor desencadeado pela substância. 

    Agudamente, os efeitos do cannabis podem causar prejuízo da coordenação, euforia, ansiedade, hipotensão, taquicardia, prejuízo do julgamento, hiperemia conjuntival, taquicardia, boca seca e estimulação do apetite. 


    Efeitos a longo prazo 

    Os efeitos do uso intenso do cannabis incluem a síndrome amotivacional (desânimo intenso e contínuo) e os efeitos decorrentes do cannabis fumado são semelhantes aos do tabaco, como doença pulmonar obstrutiva crônica, carcinomas pulmonares e doenças cardiovasculares. 
    Ainda se discute muito se o cannabis causa doenças psiquiátricas crônicas ou se meramente desencadeia condições predisponentes ou piora quadros sub clínicos pré-existentes. 

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